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18/08/19
Le Psychodrame de Rossellini
Topic: Roberto Rossellini

 

 

 

 

Quando Rossellini e Moreno confluíram numa esquina da História sob os auspícios de Anne Ancelin Schützenberger 

When Rossellini and Moreno converged on a corner of history under the auspices of Anne Ancelin Schützenberger

in Psicodrama nº 9, Nov 2018

António Roma Torres

 

Histórico, foi o adjectivo escolhido por João Bénard da Costa para qualificar um evento que em 1973/74 inaugurou muito do que se passou não só inicialmente na Fundação Gulbenkian como depois na própria Cinemateca Portuguesa desde então até hoje.

Referia-se à retrospectiva de Roberto Rossellini organizada pela Fundação Calouste Gulbenkian e que teve não só a presença do cineasta italiano como do carismático director da Cinemateca Francesa, Henri Langlois, e essas palavras foram escritas no texto de abertura do Catálogo que em 2007 a Cinemateca publicou aquando de uma segunda muito completa retrospectiva da obra de Rossellini.

Emblemática foi a sessão inaugural em 17 de Novembro de 1973 com a exibição de Roma Cidade Aberta "em que a seis meses do 25 de Abril a tempestade de aplausos se transformou numa manifestação anti-regime, com as emoções ao rubro. Foi um acontecimento único, irrepetível, incessantemente evocado nos anos entretanto decorridos."[1]

Na filmografia de Rossellini consta na página 563 do mesmo catálogo um filme de 1956 intitulado Le psychodrame com a simples indicação de "filme desaparecido".

Histórico será agora também o aparecimento e restauro do inédito de Rossellini depois de uma primeira busca há vinte anos em que João Bénard da Costa esteve também envolvido, aquando da presença de Anne Ancelin Schützenberger no Congresso Português de Psicodrama na Figueira da Foz em 1998.

 

UMA SEGUNDA VEZ

Quando no meu mandato como Presidente da SPP fizemos em Ofir o I Congresso da Sociedade Portuguesa de Psicodrama em 1990, Mário Vale Lima que muito contribuiu para que ele tenha acontecido, numa altura em que a iniciativa não era completamente consensual na estratégia defendida pelo primeiro grupo de sócios, estava muito justamente num dos cantos da mesa de abertura e com a ironia discreta que lhe conhecemos declarou-se feliz por ter aquele, mesmo se modesto, lugar na...esquina da História.

Vale a pena pois passar uma segunda vez pelas esquinas da História, mesmo, ou até fundamentalmente, quando na primeira o rasto possa ser escasso ou enganador.

O Karl Marx materialista histórico, comentando Hegel, considerava nas primeiras linhas de O 18 de Brumário de Louis Bonaparte, que "a História se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa" e, portanto, as oportunidades voltam a surgir.

O próprio Moreno, com menos ironia e talvez mais esperança, corrige o pensamento assegurando que "toda a segunda vez verdadeira é a libertação da primeira".[2]

Em 17 de Novembro de 2018, aniversário da sessão na Gulbenkian com a presença de Rossellini, Le Psychodrame vai ter a sua estreia na Cinemateca Portuguesa, precedida por uma exibição na véspera no XIV Congresso Português de Psicodrama em Aveiro, graças à colaboração do actual presidente da Cinemateca, José Manuel Costa.

Mas houve uma primeira vez (ou uma tentativa), vinte anos antes no V Congresso Português de Psicodrama na Figueira da Foz, em 3-4 de Abril de 1998.

Então convidámos Anne Ancelin Schützenberger (juntamente com Grete Leutz e o então seu discípulo Jörg Burmeister) com quem tinha convivido em duas reuniões, em 1995 e 1996 em Lovaina (Bélgica), onde fundámos a FEPTO.[3]

Por essa ocasião, conhecedor do misterioso filme de Rossellini que aparecia em muitas das suas filmografias publicadas, perguntei a Anne pelo seu paradeiro e a possibilidade de o poder exibir, ficando a saber que fora uma produção da ORTF, a que tinha sucedido o INA, Institut National de l'Audiovisuel, em cujos arquivos o filme, eventualmente não editado, certamente estaria.

Através de Saguenail, cineasta francês radicado em Portugal, consegui um primeiro contacto em Paris, com uma inicial resposta afirmativa sobre a cedência da cópia, mas logo seguido de uma segunda informação de que não fora possível localizar a cópia no arquivo.

Sabendo que a persistência pode fazer milagres na descoberta de cópias de filmes supostamente perdidos tentei a ajuda do director da Cinemateca Portuguesa, João Bénard da Costa, e da habitual gentileza nestas questões.

O assunto até pela sua mítica ligação com Rossellini depois do histórico ciclo da Gulbenkian, interessou João Bénard da Costa que se empenhou em conseguir desbloquear quaisquer obstáculos, confirmando junto de Adriano Aprà, estudioso da obra de Rossellini, a existência do filme que, no entanto, "nunca ninguém vira".

A verdade é que todas as diligências posteriores foram infrutíferas, mas houve uma curiosa surpresa.

João Bénard da Costa falou-me que tinha integrado nos anos sessenta um grupo de professores do ensino secundário que tinham aprendido psicodrama, inicialmente dirigido por Pierre Weil, então já radicado no Brasil, e depois durante dois ou três anos por Anne Ancelin Schützenberger em sucessivas vindas a Lisboa com o patrocínio das Nações Unidas.

Anne Ancelin Schützenberger era por essa altura muito activa em diferentes iniciativas de divulgação do psicodrama, como ela própria afirma nas partes autobiográficas do seu livro, traduzido em português, O Prazer de Viver[4], e nesse contexto não espanta portanto vê-la como encarregada de pesquisas do Centro de Estudos de Radio-Televisão como consta no convite para a conferência de J. L. Moreno sobre "Televisão e Psicodrama", na quinta feira 11 de Outubro de 1956, às 20:45, seguida de uma sessão de psicodrama que precisamente seria o objecto do filme de Rossellini.

 

TELEVISÃO GLOBAL

O interesse de J. L. Moreno pela televisão não se pode estranhar se recordarmos que ele tinha partido de Viena para os Estados Unidos em 1925, movido pelo interesse em divulgar e comercializar um sistema de gravação e transmissão de imagens e som que patenteara e a que chamara RadioFilm, a que o New York Times de 9 de Agosto de 1925 dera particular atenção ainda quando da sua apresentação na Europa.[5]

É verdade que essa expectativa acabou frustrada, mas o interesse de Moreno não esmoreceu tentando usar o psicodrama em emissões de rádio por toda a década de 30, antes da abertura da clínica de Beacon House, e tendo-se cruzado nesses meios radiofónicos com o também irrequieto Orson Welles.

No livro de referência de Moreno, Psychodrama First Volume[6], todo o último capítulo aborda "os filmes terapêuticos", com uma parte substancial, em co-autoria com John K. Fishel, sobre "Psicodrama e Televisão", aliás previamente publicada em 1942.[7]

Moreno & Fishel dão detalhadas explicações sobre o uso de duas câmaras (posteriormente generalizou-se, e ainda persiste, o uso de três câmaras em simultâneo com uma iluminação constante, iniciado em 1951, na sit-com I Love Lucy, pelo realizador e director de fotografia, Karl Freund, com uma notável carreira europeia no cinema antes da passagem para a televisão nos Estados Unidos) mas ocupam-se também das características do directo televisivo questionando-se se "a televisão poderia facilmente cair na conserva, tal como aconteceu com a rádio" e "mostrando a aplicabilidade dos métodos de espontaneidade ao veículo da televisão" (sublinhados meus, ART).

"O perfeccionismo na produção cinematográfica compensa porque o filme é repetível e pode ser exibido em muitos lugares ao mesmo tempo ou em ocasiões diferentes. Mas o produto da televisão ainda não é repetível. É instantâneo e extemporâneo - transitório - e nisso reside todo o seu significado. Logo que se procurar fazer repetível, tornar-se-á como um filme cinematográfico e perderá a sua característica central. Mas se há-de ser momentâneo, a finalidade da produção deve adaptar-se a isso e atingir um alto grau de flexibilidade espontânea. Obviamente, a programação diária de uma emissora de televisão tem de atender a um número tão grande de situações e de actos que o sistema do filme cinematográfico não pode ser automaticamente transplantado para esse veículo. Um novo sistema deve ser organizado e introduzido que participe de algumas das fases das técnicas antigas e conservadas, mas que seja integrado e vitalizado por métodos de espontaneidade. No decurso da experimentação, poder-se-á descobrir a existência de características a que as técnicas conservadas podem ser aplicadas, mas o significado supremo da televisão e - talvez - o seu destino serão alcançados se a relação entre produção e equipamento técnico for semelhante à coordenação instantânea do piloto com o seu avião."[8]

Em 1956 a televisão ainda tinha muito que andar. Basta dizer que só no ano seguinte seriam iniciadas em Portugal as emissões de televisão.

A evolução, no entanto, se excedeu em muitas coisas o que se poderia talvez imaginar (a transmissão por satélite, o mundo digital e global, a internet), noutros aspectos o psicodrama e a sociometria não colheram os benefícios destes novos sentidos, e nova consciência, que o homem adquiriu, nem os souberam ainda influenciar, mesmo quando alguma terminologia e realidade teoricamente o poderia facilitar, como no que respeita aos reality shows ou as redes sociais.

Não se pode assim dizer que se tenha atingido o que Moreno proclamava, ou seja, que "os experimentos de espontaneidade cuidadosamente organizados devem mostrar às entidades que controlam a disseminação de notícias, os programas de diversão, etc. que a televisão pode funcionar, de facto, sem o emprego de conservas."

 

CINEMA REVELADOR

O Rossellini que Moreno conheceu em Paris era um homem em crise, mas não um homem desesperançado. A sua relação com Ingrid Bergman, de seis anos e seis filmes, acabara. Divorciaram-se no ano seguinte. E no plano criativo não se conformava com o registo convencional do cinema de ficção que acabará ainda por fazer por mais uma década.

Mas em 1956 Rossellini preparava-se para filmar para a televisão um documentário na Índia e isso explica até a característica ocasional e rápida desta experiência com o psicodrama.

Se, no entanto, atentarmos numa espécie de manifesto pró-Rossellini publicado no ano anterior nos conhecidos  Cahiers du Cinéma por Jacques Rivette[9] (de quem não escaparão as afinidades psicodramáticas de um filme que realizará em 1969, L'Amour Fou) vamos ver um entusiasmo traduzido na frase "aquando do aparecimento de Viagem em Itália" - filme de Rossellini de 1954 - "todos os filmes envelheceram, de repente, 10 anos."

Por esta época o guru da nouvelle vague André Bazin e Jaques Rivette defendiam um cinema que dá a ver, discutindo a ética do ponto onde se coloca a câmara, por oposição à valorização da "montagem que esconde".

Nas palavras de Rivette "existe uma estética da televisão", descoberta nos "filmes de Rossellini, ainda que em película, também submetidos a esta estética do directo, com tudo o que isso comporta de desafio, de tensão, de acaso e de providência (e é já uma primeira explicação do mistério de Giovanna d'arco al rogo" - filme de Rossellini também de 1954, o último com Ingrid Bergman a partir de um oratório de Paul Claudel em que a actriz volta ao papel de Joana d'Arc que fizera já num filme americano dois anos antes do primeiro filme sob a direcção de Rossellini  - "onde cada mudança de plano parece tomar os mesmos riscos e provocar a mesma angústia que cada movimento de câmara)."

O que Rossellini procurava no momento em que encontra Moreno e o psicodrama expressa-o talvez melhor em 1963 numa entrevista a Fereydoun Hoyeda e Erich Rohmer[10] também nos Cahiers du Cinéma: "O próximo filme que vou fazer...Mas não quero chamar-lhe um filme, porque aquilo que vou fazer não será cinema. Digamos: ‘Vou pôr em película" uma história do ferro. (...) Proponho-me ser não um artista, mas um pedagogo."

Realmente depois da solidificação do Rossellini neo-realista entre La nave bianca (1941) e Viagem a Itália (1954), o cineasta parece hesitar entre o documentário televisivo voltado para a cultura e a história, entre Índia (1959) e L'Etá del Fierro (1965), e a ficção mais convencional mais ou menos a contragosto, entre O General Della Rovere (1959) e Anima Nera (1962), para abraçar finalmente o cinema pedagógico de A Tomada do Poder de Luís XIV (1966) em diante.

Nesse ponto de charneira Le Psychodrame foi talvez apenas um esboço, no melhor sentido moreniano do momento, sem peso e substância que pudessem evitar o longo período na poeira dos arquivos, mas quiçá agora com a oportunidade de uma verdadeira segunda vez.

Ao escrever este texto ainda conheço apenas 6 minutos, que nos foram encaminhados por Marco Greco do Moreno Museum de Turim que colaborou no restauro do filme, dos 53 que constituem Le psychodrame, "três ensaios filmados dirigidos por J. L. Moreno". [*]

Um grupo de actores são convocados para uma experiência que não se pretende terapêutica ou de demonstração do mecanismo do psicodrama, mas antes uma libertação dos recursos criativos de alguns intérpretes, favorecendo a espontaneidade e a sua percepção do outro na interpretação dramática, como o apresentador informa no princípio ao lado de Jim Enneis, psicodramatista americano que irá comentar o que se passar.

Talvez o encontro fugaz de Moreno e Rossellini, fora dos seus habitats naturais, não tenha permitido explorar a tensão criativa de dois directores, o de cena e o da régie, com diferentes modalidades de iniciativa e liderança entre eles, tal como os formulara Moreno, alcançando a instantânea coordenação do piloto com o seu avião (equipa/tripulação e equipamento), mas a estreia da versão restaurada na Cinemateca Francesa a 9 de Março de 2018 escassas duas semanas antes da morte de Anne Ancelin Schützenberger por sua vez a uma semana do seu 99º aniversário, pode ser tomada como um sinal de uma permanente vitalidade que a espontaneidade incorpora numa dimensão de uma ideia de psicodrama sempre inacabado.

[*] Marco Greco explica (aos 6:00 min.) com algum exagero a minha emoção com a descoberta deste inédito de Rossellini na apresentação do filme no 36 Torino Film Festival em 24 de Novembro de 2018.

[1] Bénard da Costa, J (2007) - Introdução in Roberto Rossellini e o Cinema Revelador, Cinemateca Portuguesa - Museu do Cinema.

[2] Moreno, J L (1947) - Psicodrama, Cultrix, 1989, p.78

[3] http://www.fepto.com/about-fepto/history

[4] Schützenberger, AA (2009) - O Prazer de Viver, Sinais de Fogo, trad. port 2010.

[5] https://www.nytimes.com/1925/08/09/archives/steel-band-called-radiofilm-makes-record-of-broadcasts-inventors.html

[6] Moreno JL (1947) - Psicodrama, Cultrix, trad. port. 1989.

[7] Moreno JL & Fischel Jk (1942) - Spontaneity Procedures in Television Broadcasting with Special Emphasis on Interpersonal Relation Systems, Sociometry, 5, 1, 7-28-

[8] Moreno, JL (1947) - Psicodrama, Cultrix, trad. port. 1989, p. 466.

[9] Rivette, J (1955) - Carta a Rossellini, Cahiers du Cinéma, 46, trad. port. In Roberto Rossellini e o Cinema Revelador, Cinemateca Portuguesa - Museu do Cinema, 2007, p 239-257.

[10] Hoyeda, F & Rohmer, E (1963) - Nouvelle entretien avec Roberto Rossellini, Cahiers du Cinéma, 146, 2-13.

 

 J. L. Moreno numa cena de Le Psychodrame (1956) de Roberto Rossellini

 

 


Posted by A. Roma Torres at 1:53 AM BST
Updated: 28/08/19 3:11 PM BST
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