LINKS
ARCHIVE
« January 2022 »
S M T W T F S
1
2 3 4 5 6 7 8
9 10 11 12 13 14 15
16 17 18 19 20 21 22
23 24 25 26 27 28 29
30 31
You are not logged in. Log in
Entries by Topic
All topics  «
Quentin Tarantino
Wednesday, 4 August 2021
Centenário de António Fernandes da Fonseca

Passa hoje o centenário de António Fernandes da Fonseca (04.08.1921-16.12.2014).

O Centro Hospitalar Universitário São João (CHUSJ) e a Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP) prestaram-lhe a justa homenagem, em que tive a honra e o prazer de participar.                                                                                                                                                                                        

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Na minha intervenção tive oportunidade de recordar algumas das facetas mais marcantes da sua vida e da sua carreira:
 
ENSINO
 
António Fernandes da Fonseca foi genuinamente um professor. Doutorou-se com uma investigação sobre A Análise Heredo-Clínica das Perturbações Afectivas feita em Londres na senda de estudos de Eliot Slater e Martin Roth e assumiu o ensino da Psiquiatria na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto depois de um longo hiato em que a cadeira esteve entregue a professores de Medicina Interna após a ida para Lisboa de Júlio de Matos e a retirada de Magalhães Lemos.  
 
No entanto o ensino da Psiquiatria estava ligado ao Hospital Conde de Ferreira e de certa forma afastado da clínica médica e cirúrgica que decorria no Hospital de Santo António no centro da cidade (até à transferência para a Asprela com a inauguração do Hospital de São João em 1959).
 
Recordo ainda a viva impressão de aluno já interessado por esta área clínica que me causaram as aulas teóricas de Fernandes da Fonseca no Salão Nobre do Hospital Conde de Ferreira que muitas vezes terminavam com a presença de um paciente que Fonseca sabia entrevistar com um gande sentido de comunicação e empatia apesar de na generalidade estar afectado por uma perturbação psicótica crónica.
 
António Fernandes da Fonseca foi no entanto um impulsionador da integração do ensino da Psiquiatria no Hospital de São João que se tornou mais viável com a abertura da unidade de internamento no Serviço, significativamente apenas em 1979, decorridos já vinte anos sobre a inauguração do novo hospital. 
 
Mas um professor não se evidencia apenas no ensino graduado. Fernandes da Fonseca liderou uma verdadeira escola de pensamento onde os discípulos puderam beneficiar da sua influência sem coartar o desenvolvimento autónomo e diferenciado das suas inclinações próprias.
 
 
HUMANISMO
 
 
 A tradição da psiquiatria portuguesa do princípio do século XX privilegiava o pensamento positivista nomeadamente com Júlio de Matos, cunhado de Teófilo Braga, com quem co-dirigiu a revista O Positivismo. No entanto não se pode esquecer no Porto a influência de António Maria de Senna, primeiro director do Hospital Conde de Ferreira, com uma perspectiva que se pode qualificar como humanista. António Fernandes da Fonseca cruza de certa maneira as duas tradições, aberto a toda a evolução científica da especialidade e nomeadamente à perspectiva geneticista que aprendera com Slater mas revelando uma perspectiva social que alicerçava o seu pensamento e se manifesta na valorização do contributo de S. João de Deus (João Cidade) religioso português do início do século XVI, sobre o qual publicou Saúde Mental e Humanização, ed. Afrontamento, 1995.
 

SAUDADE
 
 
António Fernandes da Fonseca, natural de Gondar, Amarante, conheceu na juventude Teixeira de Pascoaes, poeta e pensador, autor de A Arte de Ser Português, que defendia a importância da saudade, vocábulo que acreditava ser intraduzível nos outros idiomas, na compreensão das características que nos definem como povo. 
Mas talvez mais o impressionou o poeta, que inspirou os seus próprios poemas (Poemas Fora do Tempo, Univ. Fernando Pessoa, 2007), e prefaciou na publicação de Para a Luz - Vida Etérea - Elegias - O Doido e a Morte (ed. Assírio & Alvim, 1998). 
Mas a saudade ("dor que tem prazeres", Almeida Garrett in Camões) terá estado bem presente na sua clínica como psiquiatra interessado na perda e no luto como tema bem presente nas Perturbações Afectivas.
 
 
PENSAMENTO CIENTÍFICO
 
 
Em 1985 António Fernandes da Fonseca publicou Psiquiatria e Psicopatologia, em 2 volumes (ed. Fundação Calouste Gulbenkian), onde espelha o seu pensamento científico.
Há dois contributos particularmente relevantes: os equivalentes afectivos, manifestação somática de uma constituição maníaco-depressiva, e a forma de início pseudo-neurótica da esquizofrenia, revendo os estudos de Conrad sobre uma população militar e portanto predominante jovem e a clínica das manifestações da doença noutras faixas etárias. 
A primeira mantém-se muito actual na formulação de intervenções de uma equipa de saúde mental envolvendo psiquiatras e psicólogos (e mesmo enfermeiros de saúde mental, assistentes sociais e terapeutas ocupacionais) na ligação com as diferentes especialidades na enfermaria e na consulta de um hospital geral. A segunda ajuda-nos a dar atenção a problemas de adaptação em idades jovens delineando intervenções em crise que valorizem predisposições constitucionais e interacções ambientais, como o consumo de tóxicos, e familiares, e potenciem factores protectores que menorizem o risco de uma evolução crónica.

 
ACÇÃO
 
Se quiséssemos escolher uma faceta única para definir António Fernandes da Fonseca na sua carreira académica e profissional seria naturalmente como homem de acção e não apenas pelas suas investigações e publicações. Mais do que pelas belas ideias Fernandes da Fonseca caracterizou-se pela capacidade de fazer e de criar estruturas de tratamento para lá da governação das instituições pelas quais era responsável. Director clínico do Hospital Conde de Ferreira, soube ver para além da tradição dos hospitais psiquiátricos aventurando-se em pequenos passos que não precisaram de grandes meios ou de decisões dos poderes centrais. Foi assim que abriu em 1963 o Serviço de Psiquiatria num Hospital Geral, no mesmo ano aliás em que se inaugurava no Porto um outro hospital psiquiátrico, o Hospital Magalhães de Lemos, e foi estruturando uma resposta clínica que privilegiava o tratamento ambulatório e em hospital de dia (modalidade de tratamento que divulgara numa separata do Jornal do Médico já de 1957, em co-autoria com Eduardo Luís Cortesão e João Manuel Fragoso Mendes, seus colegas em Londres). E a verdade é que durante 15 anos o serviço foi-se afirmando apenas com essa estrutura mas abrindo-se a novas áreas clínicas e conseguindo inclusivamente atrair novas gerações para aí se formarem no internato de Psiquiatria.
 
Por outro lado tomou a iniciativa de disponibilizar as equipas de profissionais do serviço para um trabalho descentralizado na sua cidade natal de Amarante - nesse tempo como estrutura universitária o Hospital de São João não tinha uma área de intervenção definida - que anos mais tarde acabaria por se desenvolver num centro de saúde mental autónomo. 
 
Quando me coube anos mais tarde dirigir o Serviço de Psiquiatria entre 2007 e 2017 procurei estar à altura do seu exemplo e de certa maneira das suas concepções e espírito de abertura desenvolvendo o Serviço em unidades com equipas e chefias próprias expandindo o que acontecera aquando da abertura do internamento. Assim se criaram cinco Unidades (Psiquiatria do Adulto e Idoso, Psiquiatria do Jovem e da Família, Psiquiatria Comunitária, Psiquiatria de Ligação e Psiquiatria Forense) em que mais tarde se integraram diferentes estruturas residenciais, do Jovem, do Idoso e de Transição, no Pólo de Valongo, no fundo constituindo embriões de verdadeiros Serviços num Hospital Psiquiátrico Integrado, num modelo semelhante ao que à época se estava a desenvolver na Pediatria, e que acredito que possa vir a ser posto em marcha num futuro mais ou menos próximo, inclusivamente com a evolução que se adivinha com a integração dos serviços do Hospital Sobral Cid no Hospital Geral em Coimbra e eventualmente na área ocidental do Porto. Não foi possível chegar tão longe, mas a criação do Serviço de Psiquiatria da Infância e Adolescência, no final do meu mandato, e do Serviço de Psicologia, que tínhamos procurado desenvolver no número de profissionais e com especializações diferentes e complementares, embora a meu ver infelizmente no momento actual desagregado da saúde mental, de certa forma prosseguiu linhas de pensamento de António Fernandes da Fonseca que sempre mantivera no serviço consultas de Pedopsiquiatria com Vieira Mendes e Alzira Guerra (mesmo antes da criação da própria especialidade pela Ordem dos Médicos) e tivera uma significativa liderança na organização depois do 25 de Abril de uma Faculdade de Psicologia na Universidade do Porto (este seu interesse levou-o significativamente a publicar um último livro, A Psicologia e a Psicopatologia da Infância e da Adolescência, Univ. Fernando Pessoa, 2002).


 ................................................ 
 
Apesar de ter sido um evento transmitido em plataforma digital sem audiência presencial teve sem dúvida o calor humano que as características afectivas do homenageado pediam.
 
 
 
 
 
...................................................
 
 
 
 

Posted by A. Roma Torres at 12:01 AM BST
Updated: Friday, 6 August 2021 11:12 PM BST
Post Comment | Permalink
Friday, 30 July 2021
Entrevista no Jornal I

 

 Ler AQUI


Posted by A. Roma Torres at 12:01 AM BST
Updated: Thursday, 5 August 2021 10:52 PM BST
Post Comment | Permalink
Monday, 24 May 2021
Espectros de Ibsen no Teatro Carlos Alberto

Continua em cena de 26/5 até 6/6 no Teatro Carlos Alberto (Porto) a peça de Henrik Ibsen ESPECTROS numa encenação de Nuno Cardoso.

A peça, que causou algum escândalo ao tempo da sua publicação em 1881, e da estreia nos palcos, tem um contexto clínico considerando a sífilis - então uma unmentionable disease como explica Evert Sprinchorn, autor de Ibsen's Kingdom - de que padece o protagonista Osvald Alving. 

No ano anterior Fournier em França tinha publicado Syphilis et Marriage, chamando a atenção para o problema de saúde pública e para a sua progressão no espaço doméstico.

Mas nos anos 1960 da anti-psiquiatria um psiquiatra britânico, Derek Russell Davis, também ensaísta sobre teatro, fez uma outra leitura na Family Process considerando a personagem afecta de uma forma de esquizofrenia e pondo ênfase na dinâmica familiar que Ibsen descreve com maestria.

Contribuí com um texto no Manual de Leitura que o TNSJ editou.

 

 

 


Posted by A. Roma Torres at 10:35 AM BST
Updated: Monday, 24 May 2021 4:33 PM BST
Post Comment | Permalink
Saturday, 30 May 2020
Cinedrama

Cinedrama: Uma Ferramenta Terapêutica de Desempenho de Papéis com Pacientes Psicóticos

Cinedrama: A Psychotherapeutic Role-Acting Tool With Psychotic Patients

 

Roma-Torres, A; Fontoura, M & Sousa, S (2014) - Cinedrama: Uma ferramenta terapêutica de desempenho de papel para pacientes psicóticos, Psicodrama, 7, 25-37 

RESUMO

Os autores clássicos descrevem o autismo como um sintoma central da esquizofrenia. O défice comunicacional parece ser um factor determinante na evolução dos pacientes esquizofrénicos sendo o isolamento ao mesmo tempo uma causa e uma consequência dos processos psicóticos. A teoria psicodramática conceptualiza a interacção em termos de papéis e papéis complementares, interpretados no cenário por egos auxiliares. O mundo auxiliar posto no cenário (Moreno, 1946), o objecto intermediário (Rojas-Bermudez, 1970) ou a terapia por avatar assistida por computador (Leff et al, 2013) assim como a "aldeia invisível" na terapia de rede (C. Christian Beels, 1978), os grupos multi-familiares (McFarlane et al., 2003) ou a abordagem dialógica (Seikkula and Olson, 2003) podem constituir diferentes formas de um processo comunicacional reconstitutivo que possa ser associado ao tratamento farmacológico.

Este artigo pretende clarificar os procedimentos de um método psicodramático baseado em filmes, que denominámos cinedrama, revendo a experiência em ordem a determinar cenas cinematográficas utilizáveis e temas significantes bem como avaliar o resultado clínico e psicossocial.

O cinedrama mostra-se eficaz na prevenção de recaídas, na diminuição do isolamento social e na potenciação da resolução de problemas e habilidades comunicacionais dentro e fora do grupo. Contribui também para a diminuição do recurso à urgência e de admissões hospitalares. Estes dados, ainda que de um estudo exploratório, parecem promissores para o desenvolvimento desta metodologia securizante e mobilizadora da participação activa e da mudança nas pessoas com experiência de doença mental grave.

Palavras-chave: Cinedrama, Psicose, Comunicação

ABSTRACT

Classic authors described autism as a main symptom of schizophrenia. Communicational deficit seems to be a determinant factor in the outcome of schizophrenic patients, isolation being both a cause and a consequence of psychotic process. Psychodrama conceptualizes interaction in terms of role and complementary role, interpreted in the stage by an auxiliary ego. Auxiliary world in the stage (Moreno, 1946), intermediary object (Rojas-Bermudez, 1970)or computer-assisted avatar therapy (Leff et al, 2013) as the "invisible village" of a treatment network (C. Christian Beels, 1978), multi-family groups (McFarlane et al., 2003),or open dialogue approach (Seikkula and Olson, 2003) may come different ways of a re- constitutive communication process associated with psychopharmacological treatment.

This article intends to clarify a psychodrama movie-based method we call cinedrama. The experience is reviewed in order to determine the movie scenes (clips) more useful, the significant themes and the clinical and psychosocial outcome.

The results suggest that cinedrama is effective in preventing relapses, decreasing social isolation and enhancing problem solving and communication skills within and outside the group. Also contributes to reducing the number of admissions to the emergency and inpatient services. Although in exploratory study, the data seem to be promising for further development of this method reassuring and mobilizing active participation and change in people with experience of severe mental illness.

 

Keywords: Cinedrama, Psychosis, Communication


1.   Esquizofrenia e Perturbação da Comunicação

O conceito de autismo introduzido por E. Bleuler em 1911 foi a primeira tentativa cuidadosa para captar a essência clínica da esquizofrenia e, por conseguinte, desempenhou um papel importante nas suas definições até ao advento dos critérios operacionais. Ele descreveu uma rica variedade de manifestações clínica no autismo: pobre capacidade de entrar em contacto com os outros, afastamento e inacessibilidade, em casos extremos negativismo, indiferença, comportamentos e atitudes rígidas, perturbação da hierarquia de valores e objectivos, comportamento inapropriado, lógica idiossincrática e uma propensão para o pensamento delirante (Parnas et al., 2002). Os anos da psicofarmacologia moderna,com larga eficácia em alguns sintomas com especial relevância na agitação e agressão, talvez tenham alterado radicalmente a percepção dos clínicos, mas a mudança foi talvez mais aparente do que real, com atenção a um conceito de défice identificado com os sintomas negativos. A investigação mais recente estabeleceu uma firme relação entre estrutura cerebral anormal e função, mediada geneticamente, e muitas das manifestações clínicas e cognitivas desta devastadora doença. A investigação focou-se em diferentes aspectos do que se designou por "cognição fria" (atenção, sistemas de memória que variam em duração, capacidade e operações, assim como mecanismos de linguagem e perceptivos), distinguindo-a da "cognição quente" (incluindo anomalias no processamento da emoção e do afecto a partir da face e da voz). O interesse deslocou-se do plano neuro-cognitivo para a chamada cognição social propondo-se que a disfunção cognitiva na esquizofrenia seja conceptualizada como uma perturbação da comunicação mais do que a própria linguagem e a perturbação da comunicação ser considerada o núcleo do défice clínico da esquizofrenia (Niznikiewicz, MA et al., 2013). Autores como Cornblatt et al. (2003) tinham já definido mesmo na fase prodrómica o que designaram como cluster CASIS, em inglês: "(1) cognitive deficits, (2) affective disturbances (i.e., depression), (3) social isolation, and (4) school failure", que constituíriam factores de risco com um valor heurístico para definição de alvos de intervenções futuras. Em investigação mais recente ainda em psicoses iniciais Cornblatt et al. (2012) consideraram que o funcionamento social deficitário é uma característica estável ao longo do tempo e independente do estado clínico ou da emergência de psicose.


a. Comunicação e Rede

Speck e Rueveni (1969) definiram o termo "network therapy" precisamente a respeito de uma abordagem inovadora no tratamento de pacientes esquizofrénicos muito isolados (Christian Beels, 1978). Gunderson (1977), um autor com notoriedade posterior no tratamento da perturbação borderline da personalidade, numa revisão sobre medicamentos e tratamento psicossocial da esquizofrenia, pôs em relevo que os milieus de alguns programas de tratamento parecem afectar a necessidade e eficácia de medicamentos psicotrópicos (Beels, 1978). "A utilidade do grupo não depende da experiência do líder mas do grau de sentido de pertença ao grupo" (Gunderson, citado por Beels, 1978). A emergência de uma crise psicótica constitui uma experiência única de isolamento que desafia a capacidade de comunicar com confiança com o outro, afectando o paciente mas igualmente os familiares (Christian Beels, 1978). Nessa linha McFarlane (1997) desenvolveu os grupos multifamiliares psicoeducacionais de interesse solidamente validado no tratamento da esquizofrenia que Christian Beels valorizou como uma "invisible village" (Christian Beels, 2002). De modo semelhante mais recentemente Seikkula (2002) promoveu "open dialogues" para incluir a rede social do paciente no primeiro encontro terapêutico no decurso de uma crise psicótica com o objectivo de evitar que a violência percebida possa bloquear a comunicação no futuro.

 

b.  Comunicação e Papel

Em termos de teoria psicodramática este bloqueio da comunicação e o isolamento social pode ser formulado como uma ausência ou suspensão da disponibilidade de todos ou de um número muito significativo de papéis. Podemos facilmente concordar com Rojas-Bermudez (1985) que "um homem isolado, só, é uma abstracção; não existe".Para tentar explicar esta situação Rojas-Bermudez (1997) constrói a representação de um esquema de papéis em que o si- mesmo psicológico se expande, em situações de grande stress, não permitindo que os papéis se "ofereçam" ao exterior para a relação vincular com um papel complementar. O objecto intermediário, inicialmente um fantoche, para Rojas-Bermudez (1970) permitirá uma relação intensa e genuina (portanto espontânea e não prescrita) do protagonista-psicótico, depois progressivamente, e sem desorganização, deslocada para o ego auxiliar que o transporta. De certa maneira seria uma alternativa, não vinculada com a actividade produtiva do paciente sintomaticamente atenuada com alguma facilidade depois do advento dos medicamentos antipsicóticos, ao mundo auxiliar proposto por Moreno (1946) e à tentativa de pesquisa télica para uma vinculação progressivamente mais identificada com a realidade, que Moreno (1939) designou como âncoras (Leutz, 1985). A experiência psicótica poder-se-ia comparar assim à primeira fase da matriz de identidade, ou fase de identidade (duplo), em que não há ainda a distância télica que vai permitir o reconhecimento de si mesmo (espelho) e reconhecimento do outro (inversão) e de certa maneira guia as técnicas de produção psicodramáticas (Moreno, 1952). A recente terapia assistida por computador proposta por Leff et al. (2013) para o tratamento das alucinações auditivas, através da criação pelo paciente de um avatar identificado com as alucinações através de um software informático pelo qual o terapeuta passa a interagir com o paciente abrirá certamente uma possibilidade de actualização da terapia pioneira de Moreno.

 

2.  Cinema e Terapia

O uso de filmes ou cenas de filmes com intenção terapêutica em sessões individuais ou de grupo, ou entre sessões, tem sido proposto por diferentes autores (Lampropoulos et al., 2004). Moreno (1944) interessou-se pelo uso de filmes e chegou a propor a produção de filmes terapêuticos, sem um guião definido e integrando pacientes e ego-auxiliares. Por outro lado Zerka Toeman/Moreno (1945) estudando a reacção do auditório à projecção de filmes terapêuticos sugeria que o complemento de uma sessão de psicodrama devidamente guiada seria a única alternativa aos riscos terapêuticos de uma simples projecção em ecrã.

A experiência regular da exibição de filmes em projecção de formato reduzido - 8 ou 16 mm -, seguida de debate com os pacientes foi incluída por um dos autores (ART) nas actividades do Hospital de Dia do Serviço de Psiquiatria do Hospital de São João no início de 1973 continuando ao longo de cinco anos (Roma-Torres e Peixoto, 1980). O presente artigo pretende reflectir uma nova experiência do uso de filmes em actividades do Hospital de Dia, iniciada trinta e três anos depois, em Maio de 2006, por A. Roma-Torres, S. Sousa e M. Figueiredo, associando uma intervenção sociodramática num modelo que designaram por Cinedrama. O primeiro grupo de cinedrama foi composto por 8 elementos com diversos diagnósticos (Perturbações do Humor, Distimia e Episódio Depressivo, Perturbações do Comportamento Alimentar, Anorexia Nervosa e Obesidade Mórbida, Perturbações Psicóticas, Esquizofrenia e Psicose Tóxica, e Demência de Alzheimer) e terminou em Março de 2010, tendo durado sensivelmente quatro anos. Os pacientes eram encaminhados pela equipa terapêutica do Hospital de Dia, permanecendo em actividades de ambulatório após a alta.


a. Cinedrama

Em virtude da evolução estratégica do próprio Hospital de Dia entretanto integrando a Unidade de Psiquiatria Comunitária da Clínica de Psiquiatria e Saúde Mental do Centro Hospitalar São João e admitindo mais frequentemente pacientes com patologia psicótica de evolução prolongada (Curral et al., 2014) e após um interregno em que com alguns dos pacientes decorreu um programa de b-learning centrado na diminuição do auto-estigma (Sousa et al., 2014), constituiu-se um outro grupo de cinedrama que teve início em Setembro de 2010 e era destinado apenas a utentes com doença mental grave, nomeadamente perturbações psicóticas. Constituído por 9 elementos em regime de ambulatório semanal, este grupo tem como directora e ego auxiliar dois dos autores (SS e MF) e mantém-se até à actualidade, sendo os seus principais objetivos a prevenção de recaídas, a diminuição do isolamento, o treino de competências sociais e de resolução de problemas, bem como a diminuição do estigma e auto-estigma. Embora se trate de pacientes estabilizados pela toma regular de medicação o objectivo balizou-se numa perspectiva sociodramática, aplicada a um grupo constituído em função duma patologia psiquiátrica e de dificuldades previamente conhecidas comuns, pretendendo intervir num programa de capacitação e recuperação e não apenas numa menos exigente adaptação comportamental. Assim o cinedrama foi usado para o que Moreno (1939) considerou um "tratamento psicodramático iniciado com um papel que esteja bem distante daquele em que o paciente realmente vive, ou do papel para o qual desejamos futuramente conduzi-lo". Moreno identificou este procedimento como técnica do papel substituto em que inicialmente os papéis privados são propositadamente eliminados do foco de atenção introduzindo o que chamou uma distância simbólica (Moreno, 1939).

 

b. Cinema como Aquecimento

Os filmes ou cenas de filmes podem ser usados em psicodrama ou sociodrama como uma técnica de aquecimento destinada a permitir condições de espontaneidade na etapa de acção ou dramatização de uma sessão. No entanto os pacientes psicóticos particularmente em fases iniciais da doença ou com períodos ainda recentes de agudizações comportamentais não têm suficiente disponibilidade de papéis genuínos que permitam uma dramatização dos papéis sociais sem o risco de os limitar ao que Rojas-Bermudez (1970) chamou pseudopapéis, desligados do núcleo do eu, e portanto não readquiridos por um simples processo de facilitação da espontaneidade. O cinedrama permite um acesso facilitado aos papéis psicodramáticos capazes de ser actuados com espontaneidade numa "realidade imaginária" comparável no tratamento das psicoses ao princípio da realidade na psicoterapia das neuroses (Leutz, 1985).

 

c. Cinema como Objeto Intermediário

No tratamento de situações psicóticas, como provavelmente com perturbações do comportamento alimentar, comportamentos aditivos, perturbações borderline da personalidade, ou vítimas de violência interpessoal ou conflitos grupais inter-étnicos ou sociais, o cinedrama poderá recorrer a filmes ou cenas de filmes como um objecto intermediário (Rojas-Bermudez, 1970), introduzindo na etapa da dramatização uma "cena congelada", repetindo a observada no filme e progressivamente aumentando a intensidade dramática por uma criatividade pontuada pela função do director ou realizador cinematográfico ou operador de câmara, ou libertando os actores da constrição da repetição da cena em desenvolvimentos ou finais alternativos, ou precedentes reconstituídos. Na evolução das propostas de Rojas-Bermudez (1997), dos fantoches às máscaras, incluindo de maquilhagem, ou aos panos, a cena fixada em suporte fílmico ou digital, desligada do seu sentido interpretativo ou dos sentimentos evocados, pode constituir um objecto que por ser real e concreto, inócuo, identificado, maleável, transmissor, assimilável, adaptável e instrumental, é susceptível de se qualificar como objecto intermediário.

 

d. Procedimentos

Reproduzida no cenário a cena congelada ou fixada (identificada no filme), escolhidos os elementos do grupo nos diversos papéis, podendo incluir o de realizador e o de operador de câmara, a cena liberta-se no seu movimento dramático ou coreografado, com progressiva intensidade e espontaneidade, manejando as diferentes técnicas psicodramáticas e minimizando o risco de rememorização ou intrusão na vivência caótica e perturbadora de uma interacção psicótica, através da sua estrutura dramática não apenas veiculada pela palavra mas também pela emissão de sons, gestos e movimentos corporais. Compete ao director psicodramático a adequada introdução das técnicas identificadas no quadro 1.


 

PRINCIPAIS TÉCNICAS PSICODRAMÁTICAS USADAS

Sociométricas – espetogramas ativos, barómetros sociais, locogramas ativos (Cossa, 2008)

Estátuas grupais (Sternberg & Garcia, 2000)

  Role play, inversão de papéis, duplo, solilóquio (Moreno, 1946, Kellermann, 1994)

Jogos simbólicos

  Objeto intermediário (Rojas-Bermudez, 1970)

Quadro 1- Principais técnicas psicodramáticas usadas nas sessões de cinedrama

 

 

 

e. Selecção de Filmes

O sucesso de uma sessão de cinedrama está muito dependente da escolha do filme ou da cena proposta. A unidade funcional constituída pelo director e egos auxiliares deve dispor de uma base de filmes com alguma familiariedade entre eles mas permitindo propor diversas questões, evidentemente adequadas ao conhecimento que tem dos elementos do grupo e do grupo no seu total. No quadro 2 identificam-se os filmes mais frequentemente usados e que podem ser caracterizados como estando pouco identificados com a experiência habitual de consumo do cinema em salas de exibição pública ou em formato digital (DVD) de uso doméstico. São filmes mudos (Charlie Chaplin e mesmo em certa medida Jacques Tati) ou de animação com personagens (Norman McLaren), com figuras de características marcadas (Charlot ou Mr. Hulot), com alguns traços cómicos, mas evocando sentimentos comuns e situações universais (disfuncionalidades do mundo tecnológico, adaptação a meios adversos, equilíbrio entre competição e cooperação, pobreza e solidão), identificados com um outro tempo histório (produzidos há mais de cinquenta anos, escassez de palavras, imagem a preto e branco, montagem sem recurso às regras de impressão de realidade), que são portanto mais abertos à incorporação criativa pelo grupo.

 

FILMES USADOS                            

 

  Charlie Chaplin (Charlot)

 

Charlot Prestamista (1916)

 

Charlot na Rua da Paz (1917)

 

Charlot nas Termas (1917)

 

O garoto de Charlot (1921)

 

Opinião pública (1923)

 

A quimera do ouro (1925)

 

O circo (1928) 

 

Luzes da Cidade (1931)

Tempos modernos (1936)

O grande ditador (1940)

Luzes da ribalta (1952)

 

  Jacques Tati 

Há festa na aldeia (1949)

As férias do Senhor Hulot (1953)

O meu tio (1958)

 

  Norman McLaren

Vizinhos/Neighbours (1952)

Two bagatelles (1953)

História de uma Cadeira/A chairy tale (1957)

Opening speech (1960)

 

 Quadro 2 - Filmes usados nas sessões de psicodrama

f.  Selecção de cenas

A unidade funcional, deve recorrer à sua base de filmes, para que antes da sessão identifique a(s) cena(s) ou capítulos a utilizar na dramatização. Esta seleção pode ser influenciada pela temática que o grupo necessita de trabalhar no momento, pela sessão anterior, numa ótica de continuidade de intervenção, ou mesmo pela época do ano que marca tematicamente as vivências grupais. A duração das mesmas é variável, podendo ir de alguns minutos a capítulos inteiros, como se pode ver nos seguintes exemplos utilizados.

 

  • Filme "Há festa na aldeia" (1949) de Jacques Tati (Capítulo 5 - Começa a festa!) 
Sinopse: Numa pequena aldeia do centro de França é dia de festa: os feirantes chegam à praça com as suas roulotes, carroças, carros, cestas, carrocéis, lotarias, fanfarras. Instala-se um cinema ambulante.

Dramatização: Visualização da cena. O diretor convida o grupo a subir ao palco, sendo que cada elemento, à vez, deve fazer uma estátua individual, com som e movimento, que represente um divertimento da feira da aldeia visionada. O restante grupo tenta adivinhar qual é. De seguida o diretor introduz um mestre-de-cerimónias (ego-auxiliar) que convida o grupo a entrar numa casa dos espelhos. Aqui, cada elemento faz de espelho segurando um pano, e todos os elementos do grupo passam pelos vários espelhos, ouvindo o reflexo verbal emitido pelo outro relativamente a si próprio. Utilização de estátuas, inversão de papéis e solilóquios (Moreno, 1946, Kellermann, 1994). Pretende-se assim trabalhar a comunicação (estátuas), o reconhecimento do outro (inversão) e de si próprio (espelho).

 

  • Filme "Charlot Prestamista" (1916) de Charlie Chaplin (17:48 - 22:30)

Sinopse: Charlot compete com o seu colega da loja de penhores, é despedido pelo dono e contratado de novo. A cena escolhida retrata a reparação de um relógio que Charlot examina, desmonta e vê ganhar vida.

Dramatização: Visualização da cena. O diretor convida o grupo a subir ao palco, propondo um jogo dramático, em que o grupo escolhe um "doutor" que se vira de costas para o grupo enquanto este de mãos dadas forma um nó com os seus corpos que o "doutor" terá de examinar, desmontar e ver ganhar vida. O jogo repete-se e vai-se mudando o "doutor" e os nós, até que todos tenham experimentado esse papel. Esta sessão pode ser a base do trabalho sociodramático em torno da confiança no outro, através da permissão do toque e da proximidade interpessoal, contribuindo para o sentimento de pertença ao grupo e para a melhoria da comunicação intragrupal.

 

  • Filme Vizinhos/Neighbours (1952) de Norman McLaren

Sinopse: Dois vizinhos negoceiam e competem, após o enamoramento por uma flor que nasce e cresce entre os jardins dos dois.

Dramatização: Visualização do filme. Numa sessão em que estavam presentes apenas três elementos, o diretor propõe que cada um escolha uma personagem do filme visionado (dois vizinhos e uma flor). O filme é reproduzido e decomposto em clips pelo diretor que são recriados progressivamente e espontaneamente pelo grupo, que reconta a história à sua maneira. No final o diretor propõe que o grupo encontre um final para a mesma. Nesta dramatização duas particularidades a destacar: a seleção do filme tendo em conta o número de elementos presentes, o que valoriza a importância da existência de uma base de filmes com os quais a unidade funcional está familiarizada e à qual rapidamente pode recorrer ; e a possibilidade de no cinedrama a cena ser iniciada ou finalizada pelo grupo, num verdadeiro processo de construção espontânea. A espontaneidade é aqui o mote para que o grupo se supere a si próprio, habilitando-o a enfrentar novas responsabilidade, tal como Moreno sublinha quando se refere ao fator e (espontaneidade) na matriz de identidade (Moreno, 1946).


3 .  Resultados

O grupo de cinedrama decorre na Clínica de Psiquiatria e Saúde Mental do Centro Hospitalar São João e conta já com 4 anos de intervenção. Alguns indicadores clínicos e psicossociais parecem sustentar o seu sucesso na prevenção de recaídas, na resolução de problemas relacionados com a gestão da doença e na diminuição do isolamento social. Dos 9 elementos do grupo apenas um necessitou de admissão em internamento completo durante este período, sendo que o hospital de dia tem dado resposta em situações de maior instabilidade clínica. O grupo tem funcionado como uma ferramenta na prevenção da recaída, permitindo detectar alguns sinais de descompensação, podendo ser feita uma intervenção precoce e centrada no ambulatório, evitando o recurso ao internamento hospitalar de 24 horas. Desta forma ao longo dos últimos 4 anos, 4 elementos frequentaram uma vez o hospital de dia (média de 2 meses), sendo os próprios doentes envolvidos e incentivados a ser membros ativos nessa orientação. A procura do serviço de urgência diminuiu também significativamente, sendo que 6 dos elementos nunca recorreram a esta resposta desde que o grupo começou. O treino da comunicação, da resolução de problemas e da cognição social realizado no palco durante o desempenho dos papéis dos protagonistas dos filmes visualizados e através da criação e recriação das histórias, permitiu que a interação e a participação social aumentassem no dia-a- dia dos participantes. São esses também os ganhos mais valorizados e relatados pelo grupo como a capacidade em retomar e desempenhar a atividade profissional, em ir ao supermercado, em estar numa fila, em conversar com a mãe, em participar numa festa de aniversário em família, em conhecer-se ainda melhor, em aprender a confiar no grupo e em si próprio. A assiduidade e a pontualidade são também indicadores importantes, já que as faltas foram progressivamente diminuindo e os horários são rigorosamente cumpridos.

 

4 . Conclusões

 

O cinedrama parece ser eficaz na prevenção de recaídas, na diminuição do isolamento social  e na potenciação da resolução de problemas e habilidades comunicacionais, dentro e fora do grupo, em pacientes psicóticos. Contribui também para a diminuição do recurso ao serviço de urgência e de admissões hospitalares. Estes dados, ainda que de um estudo exploratório, parecem promissores para o desenvolvimento desta metodologia securizante e mobilizadora da participação activa e da mudança nas pessoas com experiência de doença mental grave.


 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Christian Beels, C (1978) Social Networks, the Family, and the Schizophrenic Patient.Schizophr. Bull. 4 (4), 512-521

Christian Beels, C (2002) afterword, in McFarlane, WR, Multifamily Groups in the Treatment of Severe Psychiatric Disorders, Guilford

Cornblatt, BA, Lencz,T, Smith,CW,Correll, CU,,Auther, AM, Nakayam, E (2003) The Schizophrenia Prodrome Revisited: A Neurodevelopmental Perspective, Schizophr. Bull., 29(4):633-51

Cornblatt BA, Carrión RE, Addington J, Seidman L, Walker  EF, Cannon  TD, Cadenhead KS, McGlashan TH, Perkins DO, Tsuang MT, Woods SW, HeinssenR,Lencz T. (2012) Risk factors for psychosis: impaired social and role functioning. Schizophr Bull. 38(6):1247-57

Cossa, M (2003) Taming Puberty: Utilizing Psychodrama, Sociodrama and Sociometry with Adolescents Groups, in Gershoni, J Psychodrama in the 21st Century, Clinical and Educational Applications, Springer, New York.

Curral, R, Lopes, R, Silveira, C, Norton, A, Domingues, I, Lopes, F, Ramos, E, Roma-Torres, A (2014) - Forty years of a psychiatric day hospital, Trends in Psychiatry and Psychotherapy, 36, 1, 52-58.

Jewell TC, Downing D, McFarlane WR (2009) Partnering with families: multiple family group psychoeducation for schizophrenia. J Clin Psychol.65(8):868-78

Kellermann, PF (1994) Role Reversal in Psychodrama, in Holmes, P, Karp, M, Watson, M, Psychodrama since Moreno, Innovations in Theory and Practice, Routledge, London.

Lampropoulos, GK, Kazantzis, N, Deane, FP (2004) Psychologists' Use of Motion Pictures in Clinical Practice, Professional Psychology: Research and Practice, 35, 5, 535-541.

Leff J, Williams G, HuckvaleMA,Arbuthnotand M, Leff AP (2013) Computer-assisted therapy for medication-resistant auditory hallucinations: proof-of-concept study. Brit. J. Psychiat., 202, 428-433.

Leutz G (1985) Psychodrama in Psychiatry - Its Imaginary Reality and Auxiliary World in Pichot PP , Berner P, Wolf R, Thau K (eds) Psychiatry the State of the Art, Springer, 245-250

McFarlane, WR (1997) - FACT: Integrating Family Psychoeducation and Assertive Community Treatment, Administration and Policy in Mental Health, 25,2, 191-198.

McFarlane WR, Dixon L, Lukens E, Lucksted A (2003) Family psychoeducation and schizophrenia: a review of the literature. J Marital FamTher. 29(2):223-45.

McFarlane WR (2011) Prevention of the first episode of psychosis, Psychiatr.Clin. North Am. 34 (1), 95-107

Moreno JL (1939) Psychodramatic Shock Therapy a Sociometric Approach to the Problem of Mental Disorders Sociometry 2 (1) 1-30

Moreno JL (1940) Psychodramatic treatment of psychosis, Sociometry, 3 (2), 115-132

Moreno JL (1944) Psychodrama and Therapeutic Motion Pictures, Sociometry 7.( 2) 230-244

Moreno JL (1946) Psychodrama, first volume. , New York, NY, US: Beacon House

Moreno ZT (1978) The function of the auxiliary ego in psychodrama with special reference to psychotic patients. Group Psychotherapy, Psychodrama & Sociometry, 31, 163-169.

Niznikiewicz, MA, Kubicki,M, Mulert, C, Condray, R (2013) Schizophrenia as a Disorder of Communication, Schizophrenia Research and Treatment, Article ID 952034, 4 pages http://dx.doi.org/10.1155/2013/952034

Parnas J, Bovet P, Zahavi, D (2002) Schizophrenic autism: clinical phenomenology and pathogenetic implications. World Psychiatry 1(3): 131-136.

Sternberg, P, Garcia, A Sociodrama Who's in Yours Shoes?,Preager, London.

Rojas-Bermudez, JG (1970) Puppets and Psychodrama, Genitor, Buenos Aires

Rojas-Bermudez, JG (1985) Psychosis and natural communication in Pichot PP, Berner P, Wolf R, Thau K (eds) Psychiatry the State of the Art, Springer, 65-70

Rojas-Bermudez, JG (1997) Teoría y técnica psicodramáticas, Paidós, Buenos Aires.

Roma-Torres, A, Peixoto. MF (1980) O Uso de Filmes numa Perspectiva Socioterápica, Boletim Departamento de Saúde Mental Faculdade de Medicina do Porto, 2, 4, 45-56.

Seikkula, J (2002) Open dialogues with good and poor outcomes for psychotic crises: examples from families with violence, Journal of Family and Marital Therapy, 28,3, 263- 274.

Seikkula J, Olson M (2003) The Open Dialogue Approach to Acute Psychosis: Its Poetics and Micropolitics. Family Process 42, 413-418.

Sousa, S., Queirós, C., Marques, A. (2014) Programa de b-learning (sociodrama & e-learning) na diminuição do autoestigma na esquizofrenia: "Curso de educação e formação para a vida activa - CEFVA", in Guerra, MP, Lima, L & Torres, S (eds.), Intervir em grupos na saúde, 2ª edição, Climepsi, Lisboa

Speck, RV, Rueveni, U (1969) Network Therapy A Developing Concept, Family Process, 8,2, 182-191.

Stuart BK, Schlosser DA (2009) Multifamily Group Treatment for Schizophrenia, Int J Group Psychother 59(3): 435-440

Toeman Z (1945) Audience reactions to therapeutic films.Sociometry 8 (3/4) 255-259, transcrito in Moreno ZT (2006), The Quintessential Zerka (Toni Horvatin& Edward Schreiber eds.), Routeledge, London.


Posted by A. Roma Torres at 12:01 AM BST
Updated: Saturday, 30 May 2020 5:20 PM BST
Post Comment | Permalink
Thursday, 28 May 2020
Fome de Actos

O CONCEITO DE FOME DE ACTOS NO PENSAMENTO PSICODRAMÁTICO

 

António Roma Torres

Roma-Torres A (2018) - O conceito de fome de actos no pensamento psicodramático, Psicodrama, 9, 39-50

 

"Aquele que fala está ele próprio a responder num grau maior ou menor. No fim de contas, ele não é o primeiro a perturbar o silêncio eterno do universo." MIKHAIL BAKHTIN, 1972, Problemy poetiki Dostoïevkovo, Problemas da Poética de Dostoievski.

 

 

Etimologicamente psico-drama compõe-se com o sufixo grego drama que quer dizer acção. Moreno ao cunhar o nome desta nova forma de psicoterapia colocava a ênfase precisamente na acção a que de certa maneira a psicanálise então dominante dava um sentido sintomático, expresso na designação acting-out. O oposto seria o acting-in que Adam Blatner levou ao título de um dos seus livros e que Moreno designou por acting-out terapêutico. No contexto psicanalítico acting-in tem sido considerada a actuação na sessão terapêutica, portanto mais associada ao falar do que ao agir.

Mas quer então dizer que para o pensamento psicodramático agir encerra naturalmente uma espécie de virtude terapêutica? O próprio Moreno contrariou essa ideia ao escrever que "o psicodrama não é uma cura pela actuação, como alternativa para uma cura pela conversa. A ideia não é que os sujeitos representem um para o outro, passando ao acto tudo o que lhes acode à mente - sem reservas, num exibicionismo ilimitado - como se esse tipo de actividade pudesse, por si mesmo, produzir resultados. Com efeito é aí que a experiência do director na arte do psicodrama contará ao máximo. Assim como um cirurgião que conhece o estado físico do seu paciente limitará uma operação ao prazo de tempo que o estado desse paciente possa suportar, também o director do psicodrama pode deixar inexpressados e inexplorados muitos territórios das personalidades dos sujeitos, se as energias destes não forem iguais ao esforço exigido durante esse tempo."[1]

 

Para Moreno a fome de actos corresponde a um estadio inicial do desenvolvimento infantil. Todas as crianças, poderíamos dizer, nascem hiperactivas. Por natureza. A dada altura, no entanto, a criança deixa de estar completamente imersa na acção (Moreno diz também imersa no momento) e a fome de actos é substituída, parcialmente, por uma fome de sonhos. É possível que tal não se deva totalmente a uma maturação do sistema nervoso, mas esteja ligado à organização cognitiva da sua experiência, naquilo que Moreno chamou matriz de identidade. Moreno falou da brecha entre a fantasia e a realidade e isso corresponde, no desenvolvimento do núcleo do eu de Rojas Bermudez, à delimitação da área ambiente, onde se depositariam as acções. Um viés da psicologia freudiana, e posterior, coloca toda a atenção no que se passa nas outras duas áreas (mente e corpo).

 

Então a disposição para agir sofre um processo de contenção normal no processo de desenvolvimento que está associado à separação entre realidade e fantasia. Moreno de uma forma muito interessante não infere daqui que a acção é pura e simplesmente substituída pelo pensamento ou pela imaginação. Moreno escreve que se formam "dois conjuntos de processos de aquecimento preparatório, um de actos de realidade e outro de actos de fantasia".[2] Até este momento todos os actos se estabeleceriam através dos papéis psicossomáticos, a partir de agora desenvolvem-se os papéis sociais através dos actos na realidade não ligados a funções fisiológicas, e os papéis psicodramáticos, ligados aos actos de fantasia, inicialmente na actividade de brincar.

 

Se revirmos os escritos de Moreno podemos talvez dizer que à contenção se poderia também associar talvez paradoxalmente a ideia de espontaneidade. "O agente da improvisação, poeta, actor, músico, pintor, encontra seu ponto de partida não fora, mas dentro de si mesmo, no ‘estado' de espontaneidade. Este não é algo permanente, algo estabelecido e rígido como são as palavras escritas ou as melodias; é, contudo, fluente, de uma fluência rítmica com altos e baixos, que cresce e desaparece gradualmente como actos de vida e, no entanto, diferente da vida. É o estado de produção, o princípio essencial de toda a experiência criadora. Não é algo dado, como as palavras ou as cores. Não está conservado, nem registado. O artista improvisador deve ser ‘aquecido', deve fazê-lo galgando a colina. Uma vez que tenha percorrido o caminho ascendente até ao estado, este desenvolve-se com toda a sua potência e energia."[3]

 

Emoção generativa

 

Dá a impressão que para Moreno a fome de actos não dispensa ou equivale ao aquecimento. Moreno na citação anterior parece ter em vista o acto criador, artístico, mas a verdade é que no parágrafo imediatamente seguinte mostra que está a falar daquilo que designamos por emoção e, ao mesmo tempo, de relações externas, no sentido de interpessoais. "Além disso, o ‘estado' não surge automaticamente; não é pré-existente. É produzido por um acto de vontade. Surge espontaneamente. Não é criado pela vontade consciente, que actua frequentemente como barreira inibitória, mas por uma libertação que, de facto, é o livre surgimento da espontaneidade. Termos como ‘emoção' ou ‘condição' tão pouco cobrem também totalmente a ideia. Pois, amiúde, o ‘estado' não só motiva um processo interno mas também uma relação externa, social, isto é, uma correlação com o ‘estado' de uma outra pessoa criadora".[4]

 

A vivência do corpo, por seu lado, traduz-se ao nível da percepção interna como uma emoção, mas ela própria é guiada pela vontade num processo de aquecimento em que o psicossomático se pode converter em acção. Moreno teoriza esse processo: ao contrário do que nos habituamos a pensar, o saudável não é saber traduzir as emoções ou os sentimentos em palavras ou pensamentos - objectivos por vezes identificados com as talk therapies - mas sim transformá-los em acções.

 

A condição fisiológica, interoperceptiva, constitui o que Moreno designa como arranque. Interessa agora compreender a intervenção do pensamento (correspondente à área mente do núcleo do eu de Rojas-Bermudez/Pichón Rivière) neste processo. Mikhail Bakhtin, linguista e filósofo russo que, no mesmo período em que Moreno iniciava o psicodrama em Viena, desenvolveu em São Petersburgo o pensamento dialógico e polifónico, considerou no seu primeiro livro, Para uma Filosofia do Acto[5], escrito em 1920 mas vindo a público apenas em 1986, que "qualquer pensamento meu, juntamente com o seu conteúdo, é um acto ou acção que realizo - é o meu próprio acto ou acção individualmente responsável. É um de todos aqueles actos que fazem da minha vida única inteira um realizar ininterrupto de actos. Porque a minha vida como um todo pode ser considerada um complexo acto ou acção singular que eu realizo: eu realizo, isto é, eu executo actos, com toda a minha vida, e cada acto particular e experiência vivida é um momento constituinte da minha vida - da contínua realização de actos. Como um acto executado, um dado pensamento forma um todo integral: tanto o seu conteúdo-sentido quanto o facto da sua presença na minha consciência real - a consciência de um ser humano perfeitamente determinado - em um tempo particular e em circunstâncias particulares, isto é, toda a historicidade concreta da sua realização - ambos os momentos (o momento do conteúdo-sentido e o momento histórico-individual) são unitários e indivisíveis na avaliação deste processo como minha acção ou acto responsável. Mas pode tomar-se o momento do conteúdo-sentido abstratamente, isto é, um pensamento como um juízo universalmente válido."[6]

 

Pensamento participativo

 

Bakhtin - e na sua esteira John Shotter, o teórico da comunicação universitário britânico que se interessou pela psicoterapia nomeadamente sistémica e colaborativa, particularmente representada pelo norueguês Tom Andersen - detém-se numa categoria de pensamento que denomina participativo, ou seja, não indiferente, engajado, comprometido, envolvido, relacionado ou interessado.[7]

 

De notar que Tom Andersen foi o criador no campo das terapias familiares da equipa reflexiva, que se desenvolve surpreendentemente a partir da postura estratégica da Escola de Milão na direcção de uma postura colaborativa, com o carácter de terapeuta auxiliar do membro de uma plateia perante o qual a família-paciente se expõe com um evidente paralelo com os instrumentos do psicodrama e as fases da sessão de psicodrama, nomeadamente o público ou auditório, e a fase de comentários ou partilha.

 

Deste modo poderíamos formular a área corpo como aquela onde a fome de actos se manifesta no plano emocional, e a área mente onde ela se elabora num processo de aquecimento, primeiro geral e depois específico, à procura de um papel sem o qual não tem acesso à área ambiente e não pode, portanto, libertar-se.

 

Na transição do aquecimento geral para o aquecimento específico podemos considerar útil a noção de meta-papel que Adam Blatner introduziu como "o nível que modula que papéis são jogados quando e como"[8]. "As pessoas aprendem a usar o meta-papel assim que aprendem a fingir e as primeiras sugestões podem ser encontradas na criança antes de um ano de idade com o surgimento do brincar. O faz-de-conta é perceptível durante o segundo ano de vida. Essa é a consciência de que a actividade pode ser entendida como real e não real, dois quadros de referência diferentes para comunicações interpessoais. Pode ver-se o meta-papel operar quando a criança sai do papel e comenta sobre o que está a fazer: ‘não, eu não gostei disso, vamos mudar', ‘ai, tu estás a jogar duro demais', ‘ok, agora eu quero ser o bébé e tu serás a mãe' ou ‘quero ir ao quarto de banho'. Estas expressões ilustram a mudança do papel para o meta-papel."[9]

 

Catarse integrativa

 

Só quando se conclui o aquecimento específico e se define um papel, e um tempo e um lugar, é que nos é possível entrar em acção, na cena como na realidade, ou seja, verdadeiramente uma catarse. O termo catarse tinha uma tradição ligada com a acção, e com o teatro, na sua origem aristotélica, mas como que ganhou, no pensamento moderno, o simples significado de expressão em palavras ou em pensamento. Passou a privilegiar-se o modelo confessional, no registo religioso ou no moderno registo psicológico. Eu passo a procurar alguém que me ouça em vez de alguém com quem interaja.

 

Moreno percebeu que "a catarse de uma pessoa depende da catarse de uma outra pessoa. A catarse tem de ser interpessoal."[10] Isto não se aplica unicamente a um momento especial de terapia ligado a uma mudança e em que possa haver uma revelação ou um insight mas a toda a acção.

 

Ao estudar a linguagem, mais que o aspecto subjectivo, Bakhtin deu uma possibilidade ao diálogo que amplia a perspectiva de Buber e de certa maneira estava contida na consciência improvisacional de Moreno. Moreno, aliás, a uma psicoterapia que fosse, melhor dizendo, "um monólogo na presença de um intérprete", contrapunha que "um diálogo, não só no sentido socrático mas também na acepção comum, é um encontro de duas pessoas, cada qual com uma igual oportunidade de combater e responder"[11].

 

Glenna Gerard[12], discípula do físico e relevante autor na área do diálogo David Bohm[13], faz um interessante paralelo entre o diálogo e as práticas de improvisação teatral (improv), ambas traduzidas pela atitude "sim-e", ou seja, "receber o que lhe for oferecido dizendo sim e juntando a sua contribuição". Este diálogo em acção seria uma espécie de pensamento em conjunto, como a música no jazz improvisado que Katia Castro Laszlo e Alexander Laszlo[14], do Monterrey Institute of Thecnology, consideram uma boa analogia. "Uma sessão de jazz de improvisação é uma boa metáfora para uma conversa próspera - jazz e conversas podem gerar suficiente emoção e energia positiva para os manter envolvidos. Numa jam session pode admirar-se a fluidez e graciosidade das melodias geradas numa construção das contribuições dos músicos umas sobre as outras. Os músicos estão verdadeiramente a ouvir-se complementando e promovendo as ideias musicais uns dos outros. Para músicos de jazz participarem numa jam session precisam de ter dedicado uma enorme quantidade de tempo e energia a aperfeiçoar as suas habilidades de executantes em cada um dos instrumentos, mas também devem ter aprendido a tocar juntos - para co-criarem. Conversas prósperas como jazz improvisado são processos co-criativos que envolvem competência, apoio mútuo e enriquecimento. Conversas prósperas são desafiadoras e divertidas".

 

Este envolvimento dialógico na acção percebe-se melhor ao considerar, com Bakhtin, a fala (utterance) como uma mais pequena unidade de conversação que a frase ou o discurso. Estamos assim perante um texto co-construído. E histórico no sentido em que está ligado a um momento.

 

 

Realidade alargada

 

A questão da linguagem adquire para uma teoria validada num contexto mais contemporâneo uma importância primordial, que não é, contudo, retirada à esfera do acto, como se fosse exclusivamente da esfera da mente.

 

Jerome Bruner seguindo John L. Austin considera que "a linguagem não se adquire no papel de espectador, mas através do uso" e "a criança não está apenas a aprender o que dizer mas como, onde, para quem e sob que circunstância"[15]. Como o autor salienta, neste inevitável e muito precoce processo de contar histórias ("se as crianças entrarem numa situação em que devem evitar que outra pessoa descubra algo que elas esconderam, então até as de dois/três anos sonegarão informação relevante à pessoa que procura e, inclusive, criam e fornecem-lhe depois falsa informação, como enganadoras pegadas que afastam do tesouro escondido"[16]) as crianças "começam a reconhecer bastante cedo que o que elas fizeram ou planeiam fazer será interpretado não apenas através do acto em si, mas também pelo que elas dizem a tal respeito", ou seja, "logos e praxis são culturalmente inseparáveis".[17]

 

"A criança, no ambiente natural, tem os seus próprios desejos; mas em virtude de contar com o afecto da família, tais desejos criam por vezes conflitos quando colidem com os desejos dos pais e dos irmãos. A tarefa da criança quando o conflito aumenta é equilibrar os seus próprios desejos e o seu compromisso com os outros na família. E ela bem depressa aprende que a acção não basta para atingir tal fim. Contar a história certa, apresentar as suas acções e objectivos sob uma luz justificadora é muito importante. Alcançar o que se pretende significa, muitíssimas vezes, arranjar a história certa. (...) Mas arranjar a história certa, opor com êxito a própria contra a do irmão mais novo, requer o conhecimento do que constitui a versão canonicamente aceitável. Uma história ‘certa' é a que liga a versão própria, através da mitigação, à versão canónica.""[18]

 

Bruner cita uma comunicação pessoal de Joan Lucariello, autora de A Study in Narrative Thinking in Children, para estabelecer que "a primeira descoberta foi que as histórias anticanónicas produziram uma enchente de invenção narrativa, em comparação com a canónica - dez vezes mais elaborações".[19] Bruner, num capítulo significativamente intitulado O Ingresso do Significado, conclui que "o nosso sentido do normativo é alimentado pela narrativa, mas também assim acontece com o nosso sentido de ruptura e de excepção; as histórias fazem da ‘realidade' uma realidade atenuada".[20]

 

Bruner desenvolve o seu argumento em torno da autobiografia e constata que a autobiografia "é um relato feito por um narrador no aqui e agora, sobre um protagonista que tem o seu nome e existiu num passado, desembocando a história no presente quando o protagonista se funde com o narrador."[21] O self como narrador relata e justifica, mas enquanto protagonista "está sempre, por assim dizer, apontando para o futuro."

 

Esta fusão do protagonista com o narrador frequentemente não é harmoniosa. Ou como escreve Olivia Lousada "infelizmente a vida deixa muitas vezes as pessoas com muitas emoções e ansiedades não resolvidas e turbulentas que inibem a espontaneidade. A repetição dos papéis criados por essas ansiedades é também uma ‘fome de actos' ou um ‘alcançar' a vida. Mesmo se disfuncional algumas vezes, a repetição destes papéis pode ser vista como uma tentativa natural de resolver sentimentos conflituais como ganhar ou recuperar o equilíbrio interno e a espontaneidade. Com o psicodrama o cliente pode aceder à ‘fome de actos' considerando a limitada amplitude dos papéis que desempenha ou dos que percebe serem representados pelos outros em seu redor. Redescobrindo a espontaneidade e uma mais larga escolha de papéis os clientes muitas vezes encontram novas formas de compreender o comportamento dos outros e o seu próprio."[22]

 

A sensação que frequentemente articula o protagonista e o director no início de uma dramatização é a de entrar numa aventura, nenhum deles sabendo ao certo onde o barco irá atracar e se os ventos da tempestade não irão perturbar a viagem.

 

Do que se trata é de criar uma realidade alargada (surplus reality) onde o protagonista possa ter uma experiência que a vida não lhe proporcionou e assim possa na última fase da sessão, e depois dela, incorporá-la no âmbito do seu self narrador. É, se assim se puder dizer, o self protagonista que desbrava o caminho para o trabalho do self narrador. Há que evitar, contudo, uma dramatização fechada, já com solução à vista, que, por muito avisada que seja, nunca será verdadeiramente terapêutica. A fome de actos que não encontrava viabilidade nas condições da vida real pode assim ter uma oportunidade na realidade dramática e, mais que isso, pode ser um factor de enriquecimento da experiência do indivíduo.

 

 

Diálogo e incerteza

 

António Damásio[23] tem procurado integrar, num modelo teórico neurobiológico, as emoções e sentimentos e a razão e os pensamentos, valorizando quer a observação clínica e experimental, quer o modelo introspectivo, mas no que respeita ao comportamento, externalizado, pondo mais frequentemente a tónica na tomada de decisão e não tanto num processo interaccional que é o do meio natural.

 

Esta temática inclusivamente tem sido objecto de atenção da pesquisa e reflexão na área da gestão económica e empresarial[24]. Gringerenzer (2007) distingue uma racionalidade lógica de uma racionalidade eco-lógica ou ligada (bounded), valorizando a interacção com o ambiente, a intuição (gut feelings) e a tolerância à incerteza, aproximando-se eventualmente mais da espontaneidade moreniana que do inconsciente freudiano que se sugere no título.[25]

 

Peter Rober[26], na área da terapia familiar de que, segundo Compernolle[27], Moreno terá sido "um pioneiro não reconhecido", estabelece o "diálogo de pessoas vivas", numa perspectiva "inspirada por Bakhtin, Volosinov e Shotter", não apenas na sala de terapia mas na vida real onde se manifestam os problemas ou as dificuldades. Rober cita Emerson, um estudioso de Bakhtin: "O diálogo não é de modo algum uma relação segura ou protegida. Sim um Tu está sempre presente mas excepcionalmente frágil, o Eu deve criá-lo (e ser criado por ele) num gesto simultâneo e mútuo, repetidas vezes, sem nenhuma autoridade especial ou promessa de estabilidade...O desequilíbrio é a norma."[28] Nas palavras de Moreno "cada um com uma igual oportunidade de combater e responder".

 

Para John Shotter[29] trata-se de um "conhecimento de 3º tipo" (knowledge of 3th kind), que sucede à teoria geral dos sistemas e à cibernética de 2ª ordem, como formulação adequada à complexidade organizada. Não conhecer o quê ou como mas de dentro (withness).

 

 

Teatro e metáfora

 

Enquanto drama etimologicamente quer dizer acção, teatro refere-se a um lugar para ver.[30] Ainda de um ponto de vista etimológico teatro e teoria têm a mesma raiz e teoria refere-se a espectáculo, que tanto poderia querer dizer teoria como especulação. Se virmos o pensamento de Moreno com a distância que a história permite, poderá considerar-se que ele usou o teatro como metáfora e foi oscilando, como Bruce Wilshine, entre considerar o teatro como sendo life-like e a vida como sendo theatre-like.[31]

 

Esta sobreposição e transição suave (cross-fading) permite a Moreno identificar a posição face às emoções e sentimentos de Freud com a do célebre teórico e encenador de teatro Stanilavski, com notória influência num método de representação mais popularmente associado ao Actor´s Studio e a uma geração de actores de Hollywood como Marlon Brando, Paul Newman ou Montgomery Clift, que fez o papel de Freud no filme que John Huston lhe dedicou[32], entre muitos outros. E por extensão talvez não excluíssemos Damásio desta tradição.

 

Moreno considera que Stanislavski "limitou o fator espontaneidade à reativação de recordações carregadas de emoção. Essa abordagem vinculou a improvisação à experiência passada, em vez do momento. Mas, como sabemos, foi a categoria do momento que conferiu à obra de espontaneidade e ao psicodrama sua revisão e direcção fundamentais. A ênfase sobre as recordações carregadas de emoção coloca Stanislavski em curiosa relação com Freud. Também Freud tentou fazer seu paciente mais espontâneo, assim como Stanislavski procurava fazer os seus actores mais espontâneos na representação de papéis conservados. À semelhança de Stanislavski, Freud tentou evocar a experiência real do sujeito, mas preferia também as experiências intensas do passado ao momento - se bem que para uma aplicação diferente - no tratamento dos distúrbios mentais. Embora trabalhando num domínio diferente, Freud e Stanilavski eram contrapartes que se correspondiam um ao outro."[33]

 

Reaproximar as emoções em relação ao presente (hic et nunc) deve ser um dos objectivos do psicodrama, relembrando que, na concepção de Moreno, a fome de actos começa a ser inibida no desenvolvimento da criança quando ela toma consciência da brecha entre realidade e fantasia, e ao mesmo tempo do passado e do futuro.

 

A noção de marcador somático de Damásio não tem que ser confinada à evocação de situações do passado e pode traduzir a complexidade de um reconhecimento da fome de actos, numa estrutura progressivamente mais complexa após os dois anos de idade. Pode identificar-se com as noções de zona e de arranque de Moreno à medida que o indivíduo alarga os seus papéis. Os papéis sociais e psicodramáticos ganham espaço e até certo ponto integram os papéis psicossomáticos.

 

Damásio associa a activação dos marcadores somáticos mais frequentemente a imagens externas mas podemos admitir que essa activação surja regularmente, sem nenhum significado previamente atribuído apenas como manifestação oscilatória característica dos organismos vivos.

 

Torna-se necessário, portanto, um ajustamento ao nível da mente para que o indivíduo se envolva numa acção. Do mesmo modo é de admitir que quando a necessidade de acção é de natureza racional, pragmática, o mesmo processo de aquecimento e de transição do meta-papel para um papel se inicie procurando os marcadores somáticos de um aquecimento específico e, portanto, garantindo um desempenho espontâneo, novo e adequado. Em ambos os casos, opera-se uma sincronização do emocional e do racional na acção. Quando este processo nas situações reais mostra algumas dificuldades a sua execução na cena dramática, sem a irreversibilidade da vida real, pode constituir uma excelente oportunidade que respeita a fome de actos do indivíduo.

 

Estamos a propor um modelo em que o arranque para o acto pode surgir na representação da mente ou na representação do corpo. No primeiro caso ele precisa de um aquecimento que associe emoções na representação do corpo (que poderão ser os designados marcadores somáticos de Damásio) em ordem a garantir um nível adequado de espontaneidade, definida por Moreno como um grau de liberdade. No segundo caso surge primeiro a emoção na área do corpo, e que se traduz no pensamento, mas principalmente na preparação para a acção, através de um processo de aquecimento que determina que papel, quando e como, de acordo com a noção de meta-papel de Adam Blatner.

 

Ronda Blair[34], professora de teatro interessada também nas neurociências, cita Damásio: "As emoções desenrolam-se no teatro do corpo. Os sentimentos desenrolam-se no teatro da mente."[35] Mas o verdadeiro é o teatro do ambiente, área de representação do exterior, seja na vida, seja na cena, e onde acontecem os actos.  Acting como o objecto de estudo de Rhonda Blair pode significar representação (no teatro), mas também simplesmente actuação (na vida).

 

Que esta actuação seja fruto de um processo elaborado não contraria a noção de espontaneidade de Moreno, essencial à homeostasia interna e à adequação ao papel complementar. "A raiz da palavra ‘espontâneo' e seus derivados é o latim sponte, com o significado de por livre vontade. A espontaneidade tem a tendência inerente para ser experimentada por um indivíduo como seu próprio estado, autónomo e livre - isto é, livre de influências exteriores e de qualquer influência interna que ele não possa controlar. Para o indivíduo, pelo menos, tem todas as características de uma experiência livremente produzida."[36]

 

Rhonda Blair toca no aspecto paradoxal desta questão ao pensar A way of thinking about acting (capítulo 3) em termos que desafiariam a separação entre o teatro tradicional o teatro espontâneo e o psicodrama que orientou Moreno. "Uma das coisas que os actores se esforçam por fazer é ‘agir por impulso' (act on impulse), uma frase que se refere a ser capaz de responder espontaneamente sem censurar ou restringir a sua reacção.  Um actor que não ‘age por impulso' não está presente ao momento, incluindo o momento dos seus parceiros de cena, e está a limitar a sua responsividade e imaginação. Mas o que é um impulso? O Dicionário de Oxford define como "súbita ou involuntária tendência para agir, sem premeditação ou reflexão (...) Quando falamos da capacidade de agir por impulso ao representar, estamos necessariamente a invocar a natureza paradoxal da espontaneidade no processo do actor, ‘pois a vitalidade espontânea do actor parece depender da medida em que as suas acções e pensamentos tenham sido automatizados, tornados uma segunda natureza.' (Roach, J R, 1993, The Player's Passion: Studies in the Science of Acting, Ann Arbor: 16)."[37]

 

Há uma citação de Moreno que faz justiça às características dialógicas da espontaneidade e da acção: "Na situação psicodramática, o mundo todo em que o actor ingressa - os enredos, as pessoas, os objectos, em todas as suas dimensões e no seu tempo e espaço - é para ele novidade. Cada passo que ele dá em frente nesse mundo cénico tem de ser definido pela primeira vez. Cada palavra que ele profere é definida pela palavra que lhe foi dirigida. Cada movimento que ele faz é definido, suscitado e configurado pelas pessoas e objectos com que se encontra. Cada passo por ele dado é determinado pelos passos que os outros dão na direcção dele. Mas os passos dos outros também são determinados, pelo menos em parte, pelos seus próprios passos."[38]

 

 

 

 

 

 

 

RESUMO

O autor aborda alguns dos conceitos centrais da teoria do psicodrama, formulados originalmente por J. L. Moreno, como fome de actos, espontaneidade e catarse integrativa, à luz de contributos mais recentes de modelos neurobiológicos e linguísticos no estudo da realidade dialógica ou conversacional, para lá das vivências de natureza subjectiva que associamos à empatia e à compreensão, procurando articular as áreas corpo, mente e ambiente, descritas no modelo do núcleo do Eu de Rojas-Bermudez.

 

 

ABSTRACT

The author addresses some of the central concepts of psychodrama theory, originally formulated by bJ L Moreno, as act hunger, spontaneity and integrative catharsis, in the light of more recente contributions of neurobiological and linguistic models in the study of dialogical or conversational realities in a subjective way associated to empaty and understanding, seeking to articulate the body, mind and environment, described in graphic nucleus of Ego model of Rojas-Bermudez.

 

 

 

 



[1] Moreno, J L (1947) - Psychodrama First Volume, Beacon, trad. port. Psicodrama, Cultrix, São Paulo, pg. 388

[2] Moreno, J L (1947) - Psychodrama First Volume, Beacon, trad. port. Psicodrama, Cultrix , São Paulo, pg. 123

[3] Moreno, J L (1947) - Psychodrama First Volume, Beacon, trad. port. Psicodrama, Cultrix , São Paulo, pg. 86

[4] Moreno, J L (1947) - Psychodrama First Volume, Beacon, trad. port. Psicodrama, Cultrix , São Paulo, pg. 86

[5] Bakhtin,M (1990) -  Filosofiia postupka, trad. port. Para uma Filosofia do Acto, coord. Bruno Monteiro, Deriva, 2014.

[6] Bakhtin,M (1990) -  Filosofiia postupka, trad. port. Para uma Filosofia do Acto, coord. Bruno Monteiro, Deriva, 2014,  pg 20-21.

[7] Monteiro, B (2014) - Para uma Filosofia do Acto - Notas, in Bakhtin,M , trad. port. Para uma Filosofia do Acto, coord. Bruno Monteiro, Deriva, 2014, pg. 90.

[8] Blatner, A (2007) - The Role of the Meta-role, Ch. 4, in Baim, C, Bermeister, J & Maciel M, Psychodrama Advances in Theory and Practice, Routledge

[9] Blatner, A (2007) - The Role of the Meta-role, Ch. 4, in Baim, C, Bermeister, J & Maciel M, Psychodrama Advances in Theory and Practice, Routledge

[10] Moreno, J L (1947) - Psychodrama First Volume, Beacon, trad. port. Psicodrama, Cultrix , São Paulo, pg. 234

[11] Moreno, J. L. (1964) - Introdução à Terceira Edição do Original Inglês in Psicodrama, Cultrix, São Paulo, pg. 37-38.

[12] Gerard, G (2005) - Creating New Connections, Dialogue & Improv, ch. 16, in Banathi, B & Jenlick, P M, Dialogue as a Means of Collective Communication, Kluwer.

[13] Bohm, D. (1996) - On Dialogue, Routledge.

[14] Lazlo, KC & Lazlo, A (2005) - The Conditions for Thriving Conversations, ch. 17, in Banathi, B & Jenlick, P M, Dialogue as a Means of Collective Communication, Kluwer.

[15] Bruner, J (1990) - Acts of Meaning, Harvard University, trad. port. Actos de Significado, Edições 70, 2002, pg 78.

[16] Bruner, J (1990) - Acts of Meaning, Harvard University, trad. port. Actos de Significado, Edições 70, 2002, pg 81.

[17] Bruner, J (1990) - Acts of Meaning, Harvard University, trad. port. Actos de Significado, Edições 70, 2002, pg. 89-90.

[18] Bruner, J (1990) - Acts of Meaning, Harvard University, trad. port. Actos de Significado, Edições 70, 2002, pg. 90

[19] Bruner, J (1990) - Acts of Meaning, Harvard University, trad. port. Actos de Significado, Edições 70, 2002, pg. 86

[20] Bruner, J (1990) - Acts of Meaning, Harvard University, trad. port. Actos de Significado, Edições 70, 2002, pg. 98

[21] Bruner, J (1990) - Acts of Meaning, Harvard University, trad. port. Actos de Significado, Edições 70, 2002, pg. 120

[22] Lousada, O. (1998) - The Three-layered Cake, Butter with Everything (chap. 12), in Karp, M, Holmes, P, Bradshaw Tauvon, K (eds.), The Handbook of Psychodrama, Routledge.

[23] Damásio, A (2012) - Ao Encontro de Espinoza, as Emoções Sociais e a Neurologia do Sentir, edição revista e actualizada, Círculo de Leitores.

[24] Gatarik, E (2014) - The generative influence of emotions and feelings on organizational effectiveness, a new theory for the practicing of knowledge management, Clinical European Journal of Management, 1, 1, 25-38.

[25] Gringerenzer, G (2007) - Gut Feelings: The Intelligence of the Unconscious, Penguin Books.

[26] Rober, P (2005) Family Therapy as Dialogue of Living Persond: a Perspective Inspired by Bakhtin, Volosinov and Shotter, Journal of Marital and Family Therapy, 31, 4, 385-397.

[27] Compernolle, T (1981) - J. L. Moreno: na Unrecognized Pioneerof Family Therapy, Family Process, 20, 3, 331-335.

[28] Emerson, C (1997) - The First Hundred Years of Mikhail Bakhtin, Princeton University.

[29] Shotter, J (2010) - Social Construction on the Edge, "Withness" - Thinking & Embodiment, Thaos Institute.

[30] Wilshine, B (1991) - Role Playing and Identity, The Limits of Theater as Metaphor, Indiana University Press, pg. 11.

[31] Wilshine, B (1991) - Role Playing and Identity, The Limits of Theater as Metaphor, Indiana University Press, foreword, ix

[32] Freud, Além da Alma (Freud, Universal Pictures, 1962), Re: John Huston; Int: Montgomery Clift (Freud).

[33] Moreno, J L (1947) - Psychodrama First Volume, Beacon, trad. port. Psicodrama, Cultrix , São Paulo, pg. 88

[34] Blair, R (2008) - The Actor, Image, and Action: Acting and Cognitive Neuroscience, Routledge.

[35] Damásio, A (2012) - Ao Encontro de Espinoza, as Emoções Sociais e a Neurologia do Sentir, edição revista e actualizada, Círculo de Leitores, pg. 42.

[36] Moreno, J L (1947) - Psychodrama First Volume, Beacon, trad. port. Psicodrama, Cultrix , São Paulo, pg. 132

[37] Blair, R (2008) - The Actor, Image, and Action: Acting and Cognitive Neuroscience, Routledge.

[38] Moreno, J L (1947) - Psychodrama First Volume, Beacon, trad. port. Psicodrama, Cultrix , São Paulo, pg 104


Posted by A. Roma Torres at 11:40 AM BST
Updated: Tuesday, 2 June 2020 5:03 PM BST
Post Comment | Permalink
Tuesday, 26 May 2020
Telepsiquiatria

Suspeito que esta pandemia de COVID 19 é bem capaz de alterar muita coisa nas nossas vidas. De certa maneira ela constituiu um momento onde todo um planeta percebeu a sua co-responsabilidade e talvez renasça num impulso de criatividade o melhor de todos nós.

Escrevi sobre isso no Público on-line de 24.5.2020 o texto Afinal estamos vivos

Uma das coisas que de certa maneira veio para ficar chama-se Telepsiquiatria e já se praticava antes. Mas a protecção do contágio reduziu as consultas com presença física ao estritamente necessário. E a surpresa foi verificar que não só as consultas por videochamada (em plataformas como o Skype ou o ZOOM) não são menos eficazes, como pelo contrário potenciam uma atenção à comunicação muito interessante mesmo do ponto de vista psicoterápico.

Cowan et. al. nos Proceedings da Mayo Clinic em Dezembro de 2019 fazem as seguintes considerações:

"Para os pacientes, a telepsiquiatria melhora o acesso ao cuidado, reduz o tempo de espera por consultas e reduz o tempo de viagem e os custos. Por exemplo, um estudo recente do Departamento de Assuntos de Veteranos dos EUA relatou que a telemedicina poupa aos pacientes em média 233 kms e 142 minutos por consulta. Esses benefícios parecem superar em grande parte as reservas que os pacientes podem ter, pois inúmeros estudos citam alta disposição para usar esse modo de cuidado e altos índices de satisfação do paciente com o cuidado que recebem via telepsiquiatria. Em certa medida, a aceitabilidade da telepsiquiatria pelos pacientes pode ser mediada por custo e distância. A satisfação é maior se a alternativa não for nenhum cuidado ou custo mais alto, com mais tempo de viagem para atendimento presencial. Apesar do acesso e potencialmente economia de dinheiro, eles podem permanecer céticos quanto à eficácia e qualidade da telemedicina. Mesmo em áreas escassas de recursos, alguns pacientes ainda expressam uma preferência por encontros em-pessoa. Percepções e expectativas negativas não devem ser ignoradas, pois podem diminuir o uso e a satisfação reais.

Os pacientes geralmente relatam maior conforto e satisfação depois de terem usado a telepsiquiatria após a apreensão inicial, desconforto e medo. Os médicos, que muitas vezes chegaram à profissão porque desejam contato com os pacientes, podem compartilhar essas preocupações. Assim como os pacientes, os médicos também relatam melhores atitudes em relação à telepsiquiatria após experimentá-la, sugerindo que o aumento da exposição dos médicos pode ser importante para aliviar suas preocupações com o relacionamento.

Onde as barreiras de nível de organização foram eliminadas, a barreira mais freqüente era a visão de que a telepsiquiatria era menos pessoal e que era mais difícil estabelecer relacionamento. Tanto os usuários quanto particularmente os não usuários da telemedicina relataram não gostar da perda do contato pessoal do paciente. A diminuição da capacidade de detectar pistas não verbais durante a videoconferência pode limitar a construção de relacionamento, com os médicos notando dificuldade em captar nuances e emoções. Alguns médicos podem sentir e parecer rígidos ou desconfortáveis ou têm dificuldade em envolver os pacientes. Eles relataram desconforto devido ao foco em permanecer à vista e que o medo de fazer alterar o ecrã impediu a tomada de notas. O contato visual também pode tornar-se artificial através da tecnologia. Os médicos também expressaram desconforto em não poder tomar medidas físicas para tranquilizar ou confortar. Gestos como entregar lenços a um paciente choroso, mover uma cadeira para mais perto em sinal de apoio ou levar alguém para dentro e para fora pode ter significado emocional. Competências específicas do núcleo educacional têm sido sugeridas para ensinar aos médicos de telepsiquiatria como facilitar a relação terapêutica, ajustando habilidades de entrevista clínica, no que respeita a salas e móveis e prevenindo distrações. Em um centro altamente experiente, eles notam que a relação foi rapidamente estabelecida pela exibição do uso do equipamento e permitindo que os jovens e seus pais se familiarizassem com os controles de ecrã.

Os médicos relataram menor aliança terapêutica em condições de saúde telemental quando aleatoriamente designados para avaliar sessões de terapia presencial ou por videoconferência e permanecem hesitantes em usar sessões de videoconferência porque acreditavam que a aliança terapêutica estaria em risco. Eles estão compreensivelmente preocupados com a qualidade das relações terapêuticas e a capacidade de estabelecer relacionamento, dado que a pesquisa de desfecho psicoterapia encontrou aliança terapêutica para responder por quase 30% da variância nos desfechos do tratamento independente de fatores moderadores. Assim, os médicos podem temer que, se a relação sofre, os desfechos clínicos positivos serão menos próximos.

Além de seus próprios sentimentos sobre a telepsiquiatria, os médicos temem que os pacientes se sintam autoconscientes, desconfortáveis ou insatisfeitos com encontros por videoconferência. Eles expressaram preocupações sobre alguns pacientes ou circunstâncias serem inadequadas para a telepsiquiatria, incluindo idosos, pacientes com sintomas psicóticos ou que estão em crise, pacientes com deficiência auditiva ou visual ou pacientes com prejuízos cognitivos. A falta de familiaridade com a tecnologia também pode desempenhar um papel no conforto e na disposição dos pacientes em tentar a telepsiquiatria.

No entanto, os médicos avaliam o conforto e a satisfação dos pacientes com a telepsiquiatria abaixo do que os pacientes fazem e classificam os níveis de conforto dos pacientes como inferiores aos seus. Em um desses estudos, os pacientes avaliaram as reuniões por videoconferência como sendo mais significativas do que os terapeutas, e os pacientes avaliaram os terapeutas mais positivamente do que os próprios terapeutas. Os resultados gerais sugeriram que a telepsicoterapia não afetou negativamente o desenvolvimento da aliança terapêutica.

Embora muito tenha sido escrito sobre as dificuldades de estabelecer relações terapêuticas por meio da videoconferência, pode realmente haver algumas vantagens distintas na construção de relações psicoterapêuticas em um "espaço virtual". Por exemplo, alguns pacientes realmente relatam sentir-se mais confortáveis e são capazes de ser mais abertos e honestos ao discutir assuntos difíceis por causa da "proteção" ou distância proporcionada pelo espaço virtual da sessão. Os médicos também podem se sentir mais seguros avaliando pacientes com risco de agressão. Como a vinheta na Tabela 1 destaca, a relação pode até ser estabelecida em circunstâncias agudas e desafiadoras. Crianças, criadas na era da Internet, acham a telepsiquiatria bastante natural e talvez até preferível. Outra vantagem única da telepsiquiatria em termos de construção de relacionamento é a possibilidade de os pacientes (especialmente imigrantes, refugiados e solicitantes de asilo) receberem cuidados em sua língua nativa sem a ajuda de um intérprete. A exposição a essas vantagens pode ajudar a mitigar as preocupações dos médicos, uma vez que relações terapêuticas bem-sucedidas foram estabelecidas usando a telepsiquiatria em várias populações de pacientes e sintomas psiquiátricos"

 


Posted by A. Roma Torres at 11:26 PM BST
Updated: Wednesday, 27 May 2020 4:00 PM BST
Post Comment | Permalink
Tuesday, 3 December 2019
Relação médico-doente - livro patrocinado pela OM

 

Foi lançado na Torre do Tombo em Lisboa em 25 de Novembro o livro Relação Médico-Doente Um Contributo da Ordem dos Médicos (ed. ByTheBook).

Trata-se de um livro com excelentes textos nas variadas particularidades do exercício da medicina (eu próprio contribuí com um texto sobre A Relação Médico-Doente em Terapia Familiar) numa lindíssima edição com a reprodução de imagens que mostram como a pintura e outras artes plástica reflectiram em diferentes épocas e tendências estéticas esta realidade que se pretende venha a ser declarada Património Cultural Imaterial da Humanidade.

Há que felicitar o Bastonário Dr. Miguel Guimarães e o entusiasta promotor da iniciativa Dr. José Poças por terem conseguido que tudo tivesse chegado a bom porto e toda a gente sabia que não seria fácil.

O livro constitui uma prenda que se pode oferecer e há que esperar que venha a ser lido pelos colegas médicos, por outros profissionais de saúde e pelo público em geral, ou sejam os que são ou podem vir a ser os doentes, objecto dos cuidados médicos, todos nós também incluídos.

Seria injusto não destacar a qualidade das palavras de apresentação de António Barreto num texto ao mesmo tempo sério e comovente.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

"O Juramento de Hipócrates, no original ou em todas as suas versões, mais ou menos modernas e actualizadas, é o mais antigo código profissional, o mais tradicional princípio ético e o mais solene repositório de regras deontológicas. Este "Juramento" tem a característica especial de ser feito, não a favor de privilégios do profissional, não para benefício do próprio, mas em proveito dos doentes e a favor de terceiros. Rico em deveres e obrigações para os médicos, é parco em direitos e privilégios para os mesmos.

Que faz um médico democrata diante de um ditador doente? Cura-o! Um médico de direitas a um doente das esquerdas? Trata-o! Um médico negro a um doente branco? Diagnostica. Um médico cristão a um doente muçulmano? Recebe-o em consulta. Um médico da urgência hospitalar a um bandido ferido na noite? Socorre-o! A nenhum pergunta pelas suas ideias.

Eu sei que um médico não é um anjo. Que tem defeitos. Como todos nós. Mas há qualquer coisa na sua história, na sua deontologia, na sua tradição e na sua função que faz dele alguém diferente. Eu sei que, embora com cada vez mais reservas, ainda confiamos a nossa fortuna ao banqueiro. Nas mãos do advogado, depositamos os nossos direitos, mas mudamos facilmente de advogado. Ao professor entregamos os nossos filhos, mas sempre a olhar para o lado. Ao padre, a nossa alma, mas sabemos que ele é apenas um intermediário. Aos políticos, damos o nosso voto, mas com exigências e protesto. Ao médico, entregamos a nossa vida. Tudo. E mesmo que pensemos que os médicos trabalham pouco, querem enriquecer, não nos prestam atenção, são preguiçosos e incompetentes, a verdade é que pensamos isso de todos, menos do nosso. Quem o disse foi o professor Celestino da Costa, tal como me foi relatado por João Lobo Antunes: "Para os Portugueses, os médicos são todos umas bestas, menos o meu"!

É certamente a relação entre duas pessoas mais propícia à criação de laços de dependência. De um lado, a dor, a doença, o sofrimento, a incapacidade de auto-análise, a dificuldade de olhar para o espelho, a falta de formação e de informação, o receio do sofrimento, o medo da morte, tantas vezes o desespero e a ignorância! Do outro lado, a sabedoria, o conhecimento, a experiência, a ciência, a técnica, o uso de equipamentos e instrumentos sofisticados! Tudo milita a favor da desigualdade de relação, da dependência, da predisposição para fazer o que nos mandam fazer. E no entanto... Desde os juramentos clássicos e modernos, até às regras deontológicas contemporâneas, passando pela literatura, pela tradição e pelos costumes, tudo diz que a dependência dos doentes é negativa, deve ser evitada e deve ser combatida! As regras do ofício e os termos de referência éticos recomendam, muito antes dos direitos dos médicos, os seus deveres e os direitos dos doentes. A começar pela autonomia, pela liberdade de escolha e pela decisão informada por parte do doente. Mesmo sabendo que ninguém é perfeito, é de louvar uma profissão e um código ético que faz da independência do outro e da liberdade do enfermo os seus primeiros critérios. Mesmo sabendo que a preguiça, a falta de tempo, o incómodo, o dinheiro, a rentabilidade e o lucro podem influenciar decisões e sistemas, mesmo sabendo isso tudo, estamos diante de um caso único do universo deontológico: a parte fraca é a beneficiada e a sua independência é cultivada como a primeira regra!"

Excelentes reflexões com espírito crítico e afecto, esperemos que a OM o publique na íntegra e com a projecção que ele merece. 

 

 

No capítulo que escrevi pude abordar aspectos do tratamento da Anorexia Nervosa em que se geram tensões mas nem por isso constituem uma excepção na confiança que se gera entre o paciente e o médico na relação terapêutica. Cito parte do texto que o briga naturalmente o médico psicoterapeuta a uma séria reflexão.

"O tratamento de uma anorexia nervosa grave com o espectro da morte inevitavelmente presente é de certa maneira uma batalha. Mesmo num momento de grave desnutrição defendo que há lugar a uma psicoterapia que, no entanto, não será baseada na expressão dos sentimentos ou em dificuldades relacionais, mas nas crenças sobre a alimentação e o efeito da comida e na aceitação de regras da natureza. Elysio de Moura, psiquiatra e primeiro bastonário da Ordem dos Médicos, grande pioneiro mesmo a nível internacional dos princípios modernos do tratamento da anorexia nervosa e grande humanista que se salientou também pelo factor terapêutico do humor que terá estado na base de inúmeras anedotas que sobre ele circulavam particularmente em Coimbra, usou a expressão "mão de ferro e luva de veludo" para caracterizar a determinação e compreensão na atitude do médico nesta fase do tratamento mas que frequentemente são difíceis de conciliar.

Durante alguns anos desloquei-me a Londres a uma anual London Eating Disorders Conference de que era co-organizador Bryan Lask, pedo-psiquiatra e terapeuta familiar. Num dos anos o programa incluiu um debate tipo "prós e contras" anunciado com o título visível na porta de qualquer coisa como "nesta sala sustentamos que a terapia familiar é o tratamento primordial da anorexia nervosa". Na sala começava a ganhar fôlego o grupo que valorizava a insatisfação ou a consciência do constrangimento que um número significativo de membros das famílias sujeitas a esta terapia afirmava ter experienciado. Na última fila do anfiteatro Bryan Lask levanta-se, desabotoa os primeiros botões da camisa e apontando as cicatrizes da operação às coronárias que tinha feito meses antes afirma: "eu não gostei nada, mas provavelmente essa intervenção salvou-me a vida".

Não há outra doença psiquiátrica que ponha directamente em risco a vida como a anorexia nervosa e por isso o exemplo permite temperar o valor da satisfação com a também relevante pertinência da eficácia. Por vezes, nestas circunstâncias, a relação médico-doente pode constituir um campo de batalha, onde há que esperar sangue, suor e lágrimas, metaforicamente uma operação de "socorro a náugrafos", onde não se pode conferir se no meio da aflição se conserva verdadeiramente a competência de nadar.

Salvador Minuchin expressa isto muito bem numa entrevista com Richard Simon no magazine The Family Therapy Networker: "Um terapeuta deve andar nos dois lados da rua. Ao mesmo tempo em que está conseguindo que os pais assumam o controle, também fala sobre a autonomia da filha. Explica que bons pais não é apenas controle, mas também dar espaço. E enquanto encoraja a autonomia da menina, fala com ela sobre a necessidade de os pais serem respeitados. Trazer o conflito para a sala de terapia é apenas o primeiro passo para desafiar o antigo padrão e mover os pais para fora do mundo da garota. Talvez eu esteja pensando nessa família em particular porque Carol acabou de me ligar há alguns meses para me dizer que o seu pai, que eu não via há 25 anos, estava a morrer e queria falar comigo uma última vez. Depois de todos estes anos, ele ainda se sentia ligado a mim e ao que acontecera na terapia. De alguma forma, conversar comigo no final da sua vida era a maneira de fechar um círculo. Surpreende-me com frequência o tempo que a memória de um terapeuta pode durar na vida de uma família". E conclui: "Para as pessoas aceitarem as minhas intervenções, elas devem saber que eu realmente as vejo. Devem dizer para si mesmos: ‘Sim, sou eu. Sim, ele tem o meu número'. Eu acho que o que acontece é que eu realmente me importo. Quando trabalho com uma família, estou absolutamente preocupado com eles. Eu sofro com eles. Eu choro com eles. Mesmo que eu seja como o Grilo Falante, a sua consciência. Eu também me importo com eles. Quando Jay Haley escreveu sobre Milton Erickson, ele enfatizou as suas intervenções inventivas e a sua liderança na hipnose e no uso de metáforas. Mas quando se olha para as gravações de Erickson com os pacientes, o que se vê acima de tudo é um homem que é absolutamente benigno". 

 


Posted by A. Roma Torres at 11:27 PM GMT
Updated: Wednesday, 27 May 2020 10:23 PM BST
Post Comment | Permalink
Friday, 20 September 2019
Faz hoje duzentos anos

 

 

...que morreu o Abade (José Custódio de) Faria (1756-1819).

Em Paris com 63 anos de idade.

A efeméride pelos vistos não é notada, mas este português nascido em Goa de uma família brâmane e sacerdote católico merece sem dúvida atenção.

A sua vida foi aventurosa numa época fascinante tanto na Europa como na Índia (e particularmente entre o governo Marquês de Pombal e as Invasões Francesas e a ida da corte para o Brasil). Foi uma personagem de O Conde Monte-Cristo de Alexandre Dumas, embora vendo alterada inclusivamente a nacionalidade, mas as suas aventuras não foram de capa-e-espada. Mesmo assim esteve preso na Bastilha e provavelmente no Castelo de If onde o romancista o descreve como companheiro de prisão de Edmond Dantés.

A vinda dele aos 15 anos para Lisboa, e depois para Roma onde estudou e fez uma tese intitulada De existentia Dei, Deo uno et Divina Revelatione que lhe mereceu um convite para fazer o sermão de Pentecostes perante o Papa Pio VI, correspondeu provavelmente a um projecto político do pai visando a valorização do Patriarcado do Oriente.

Já regressado a Lisboa foi convidado por D. Maria I a fazer também um sermão no Palácio de Queluz mas acabou por ser suspeito aos olhos de Pina Manique de estar aliado à conspiração dos Pintos em Goa, influenciada pela independência americana e visando também a autonomia política do território, e viu-se forçado a exilar-se em Paris onde foi testemunha da Revolução Francesa.

A sua maior notoriedade, que Alexandre Dumas bem conhecia e está espelhada no seu romance, veio-lhe da hipnose que ele praticava, talvez aprendida na sua terra natal. No final da sua vida dava as Aulas de Quintas-Feiras na Rue Clichy, 49 onde acorria uma população desejosa de participar e aprender uma noção menos mágica que a que fora difundida anos antes pelo médico austríaco Anton Mesmer que acabara por cair em descrédito.

O Abade Faria escreveu um livro De la cause du sommeil lucide publicado postumamente e que pode considerar-se uma tentativa de estudar uma forma de cura já compaginada com a racionalidade científica que estava a nascer.

Freud em Paris frequentou, anos mais tarde, círculos parisienses onde a hipnose estava de novo a ganhar crédito (nomeadamente com Charcot na Salpêtrière) e a hipnose é sem dúvida a matriz de todas as formas de psicoterapia até hoje conhecidas.

Há alguns anos publiquei uma peça de teatro, Tudo Espantalhos (Afrontamento, 2014), sobre a vida do Abade de Faria, a importância do seu método de tratamento e toda a época que o envolveu, tendo convocado sete personagens seus contemporâneos com quem dialoga explorando diferentes aspectos do seu método.

No fundo constitui uma abordagem dialógica, podendo em palco ser representada apenas por dois actores.

 

 

 

HENRIQUE

Henrique José de Medanha Benevides Cirne

Secretário de Estado na Índia, depois desembargador. Funcionário da Coroa com os privilégios e os constrangimentos das funções.

 

MANUEL

Frei Manuel do Cenáculo Vilas Boas (1724-1814)

Brilhante, culto, seguro de si. Criador de bibliotecas. Bispo de Beja e mais tarde Arcebispo de Évora. Preceptor e confessor do Príncipe ainda criança numa operação para o preparar à sucessão do rei seu avô, na qual o Marquês de Pombal, com quem colaborara na reforma da Universidade de Coimbra, estava especialmente interessado.

 

LUÍS ANTÓNIO

Luís António Verney (1713-1792)

Estrangeirado, vive um exílio amargurado pelo reumatismo e pelo atraso cultural dos portugueses. Quase arrogante. Publicara o Verdadeiro Método de Estudar de grande importância na reforma da Universidade de Coimbra, afastando-se depois do Marquês de Pombal.

 

INÁCIO

Frei Inácio de São Caetano (1719-1788)

Afável e com sentido de humor. Influente junto da Rainha e fiel ao Marquês de Pombal, tem um efeito moderador sobre a Viradeira. Não parece procurar o poder que tem. Escreveu um compêndio para formar dignos ministros do sacramento da Penitência. Bispo de Penafiel, sem nunca lá residir, depois Arcebispo de Tessalónica e Inquisidor-Mor sem zelo nem apetência. Morreu nos jardins do Palácio de Queluz provavelmente assassinado.

 

DIOGO

Diogo Inácio de Pina Manique (1733-1805)

Soturno e competente vive as maiores contradições entre o progresso e a benemerência e a ordem e a organização. Prevalece o funcionário zeloso.

 

 

 

 

 

 

ANTOINE

Antoine Lavoisier (1743-1794)

Exemplo do pensamento científico a despontar, da alquimia mítica para a química moderna, revela optimismo sobre a compreensão da natureza e pessimismo sobre a evolução social. Pertenceu a uma comissão nomeada por Luís XVI para avaliar o magnetismo animal de Mesmer. Acabou guilhotinado pela Revolução, ao tempo da lei dos suspeitos.

 

ANDRÉ

André Masséna (1758-1817)

Fogoso general mesmo na ressaca da frustrada invasão portuguesa. O uniforme e o título disfarçam mal a origem popular. Marechal de Bonaparte, foi governador militar de Marselha no Governo de Luís XVIII.

 

 

A escolha de sete quadros em que a peça de desenvolve e também sete personagens complementares que se lhe contrapõem, obedece a uma concepção numerológica que se expressava na cabala e que o próprio Faria seguiu dividindo as suas obras em múltiplos de sete (a tese em Roma De existentia Dei, Deo uno et Divina Revelatione em 63 capítulos e o livro De la cause du sommeil lucide em 14 capítulos com 14 partes cada).

Dessa peça que escrevi extraio partes do seu livro De la cause du sommeil lucide que mostram uma forma mais empática e baseada na comunicação de entender a hipnose e que contrasta com a imagem do hipnotista demiúrgico, autoritário, manipulador que a sua estátua em Goa apesar de tudo sugere:

 

 

Paris troça de mim.

A ignorância é sempre mais fácil.

Por isso estou aqui a ensinar

Nestas aulas das Quintas-Feiras.

A ciência, a verdadeira ciência,

Desafia,

Gera contradições,

É muitas vezes objecto do riso e do sarcasmo.

Galileu e Cristovão Colombo enfrentaram a incredulidade

E a resistência dos seus contemporâneos.

Nada no sono lúcido está para além da razão humana.

Não sei se o autor de "Magnetismomania"

Escreveu a sua produção para expressar a sua opinião como céptico,

Ou se foi apenas motivado pela especulação lucrativa.

Se eu falhar na apresentação das minhas ideias e dos meus métodos,

Não me falhou certamente a mais recta intenção.

Se eu falhar, não foram certamente as ideias erróneas as causadoras,

Mas talvez o talento insuficiente.

As ideias foram-me ditadas pela experiência e pela observação

E não concebidas como verdades dogmáticas.

O homem aprecia a verdade

A partir da experiência pessoal e da interacção social.

Verdades inacessíveis à compreensão

Ou baseadas em princípios ocultos

Não têm mérito e não merecem respeito.

Mesmer espantou Paris com os seus ímanes.

Mas o sono lúcido não depende de nenhum íman.

Mesmerismo foi como se chamou essa acção curativa.

E, quando se retirou o íman,

Falou-se de magnetismo animal.

Mas não há nada que se pareça

Com a atracção magnética do ferro.

Por isso uso a palavra concentração

Em vez de magnetização

E epopta

Em vez de sonâmbulo.

Para os gregos epopta

Era aquele que via tudo sem véus,

Com nitidez.

Não tornamos epopta alguém que queiramos

Mas apenas os que o podem.

Não produzimos em ninguém um sono que não exista.

Apenas desenvolvemos aptidões que já possuem.

Concentração não é mais que a abstracção dos sentidos.

Todo o epopta beneficia de intuição

Num outro estado de consciência.

Essa intuição usa funções semelhantes

Ou até superiores aos cinco sentidos,

E o tempo e a distância não constituem o mesmo limite.

O epopta desvenda o passado

E vê à distância

Ou prediz o futuro,

Mas através de imagens como num sonho.

Na realidade o sonho apresenta ao homem

Uma mistura de verdades e erros.

A alegoria, o símbolo e o enigma

Dão-lhe uma aparência diferente da realidade.

A liberdade exterior é o controlo

De todos os movimentos voluntários e involuntários

Face à vontade do operador.

A liberdade interior é a habilidade

Para focar a sua atenção num tópico particular

Quando essa necessidade ou urgência surge.

A lucidez é consequência da liberdade interior

E implica uma menor liberdade exterior

E uma mais fraca ligação ao corpo.

Eu sei que as minhas descrições não podem ser tão apuradas

Como as de um anatomista ou de um fisiologista,

Mas falo também somente das ideias que surgem

Da minha observação, experiência e reflexão.

O sono leva o homem próximo do seu estado original e primitivo.

A insanidade ou tudo o que pertença à categoria de doença mental

É um estado contra a natureza,

Enquanto o sono lúcido eleva o homem à perfeição do seu estado original.

Somos forçados a entender que aqueles que morrem

Antes que a decrepitude se manifeste

São menos abandonados pela natureza

Do que afastados pela tirania da ignorância.

Estes efeitos não se devem a uma ilusão.

São reais e manifestam-se no corpo dos epoptas

Como quando respondem a causas naturais.

Um copo de água pode inebriá-lo totalmente

Se ele acredita que é brandy,

Evacuará mais do que pede a natureza

Se acreditar que é purgativo

E vomitará sem dor e sem esforço

Se acreditar que é emético.

Do mesmo modo, água nas narinas

Terá um efeito descongestionante

Se for apresentada como tal.

Esta é a verdade sobre os efeitos nos próprios órgãos internos.

É preciso explicar a diferença entre convicção e persuasão.

A persuasão acontece quando a mente adere à crença de outro.

Seja qual for a confiança que tiver no outro,

É sempre menor que a confiança que podemos ter

Quando surge da evidência da nossa consciência.

Devemos estudar o que é a vontade.

Como e porque actua

Nos limites de uma determinada jurisdição.

A vontade de outra pessoa

Pode actuar em nós

Sem o nosso conhecimento ou apesar disso.

Até as crianças percebem.

Mas permito-me concluir que, na origem do sono lúcido,

Não há nada mais do que

Os efeitos do cuidado e do bem-estar

Que alguém recebe

Numa boa companhia.

 

 


Posted by A. Roma Torres at 12:06 AM BST
Updated: Wednesday, 27 May 2020 7:15 PM BST
Post Comment | Permalink
Tuesday, 13 August 2019
Hipótese

 

A hipotesização foi uma das três linhas de orientação da sessão de terapia familiar propostas pela Escola de Milão. 

Gianfranco Cecchin  enriqueceu esta linha de pensamento com os conceitos de curiosidade e irreverência. Na terapia familiar estratégica os terapeutas ainda com um mínimo de informação tentam colocar hipóteses sistémicas sobre a família, o que se está a passar e a função do sintoma no momento actual do quadro familiar. Os poucos dados informativos são organizados nas suas possíveis relações e assim a interacção sistémica vai estar presente no espírito dos terapeutas quando outros dados surgirem provavelmente numa narrativa linear propostos pelos membros da família no decurso da sessão. Foi também Cecchin quem melhor identificou o papel dos preconceitos na primeira sessão com a família. A neutralidade que era, com a circularidade, uma das outras duas linhas de orientação preconizadas, identifica-se habitualmente com a objectividade tão querida ao pensamento científico em que a medicina se procura basear. Mas a cibernética de 2ª ordem já mostrara que o terapeuta observador não se podia pôr de fora da realidade observada e Cecchin teve que declarar que, assim como a Escola de Palo Alto estabelecera de forma axiomática que era impossível não comunicar, havia também que convir que era impossível não ter preconceitos. Restava escolher os preconceitos, e para o terapeuta sistémico eram sem dúvida mais convenientes os preconceitos sistémicos.

O observador influencia assim a realidade observada, e no caso do terapeuta pede-se até que a influencie, a modifique, no sentido da cura, da saúde.
Quando Hitchcock colocou o mais inocente dos ícones de Hollywood, que era James Stewart, com uma máquina fotográfica a observar as traseiras em Janela Indiscreta, ele transporia para o cinema a lógica do Padre Brown criado por G. K. Chesterton, por sinal um autor ligado ao culto do paradoxo. Quem consegue melhor descobrir o crime é quem o consegue imaginar. Se o terapeuta puder imaginar-se na mente do paciente, se o polícia puder imaginar-se na mente do criminoso, talvez consiga ver o que escapa à observação comum. Esta é uma forma de investigação da realidade baseada na semelhança dos seres humanos. O melhor terapeuta, como o melhor detective, não é criado numa superioridade moral mas no reconhecimento de uma pertença fraterna à mesma espécie humana. Enquanto o Poirot de Agatha Christie ou Columbo apertam o cerco ao suspeito até ele se denunciar por imaginar-se descoberto no raciocínio que percebe na mente do inspector (é a imaginação do suspeito que o perde), o Padre Brown joga com a sua própria imaginação antecipando os movimentos do suspeito.
"Isto diz mais sobre a tua cabeça que sobre ele", afirma, em O Misterioso Assassínio em Manhattan, Larry (Woody Allen) a uma Carol (Diane Keaton) obcecada com uma suspeita de que a vizinha morta tenha sido assassinada pelo marido tendo acabado de conhecer ambos na véspera. Recém-divorciado, Ted (Alan Alda) parece interessar-se mais pelo enredo construído/investigado por Carol, a quem mostra um jardim nas traseiras de umas casas onde pretende fazer um restaurante.
Como noutras referências, a Bergman por exemplo, Woody Allen parece apontar discretamente a inspiração em Janela Indiscreta de Hitchcock, enquanto cita mais explicitamente, no autocarro da Mrs House (Lynn Cohen) aparentemente ressuscitada, o título original Vertigo de outro filme do realizador, A mulher que viveu duas vezes, ou noutras cenas recorrendo às próprias imagens de filmes doutros autores, como Pagos a Dobrar de Billy Wilder ou A Dama de Xangai de Orson Welles.
No psicodrama compete ao director propor uma cena e depois compete ao protagonista usar a sua liberdade para a resolver pela actuação. O que Moreno chamou o "acting-out terapêutico" e Adam Blatner de modo mais interessante o "acting-in". Do agir como forma de expressão no exterior de algo que existe no interior (ainda muito dependente de uma psicologia centrada numa realidade interna), passamos para algo que é uma ainda melhor expressão do pensamento do próprio Moreno: agir numa realidade dada em que a interacção é um aspecto fundamental, agir com os outros.
O final do filme tem assim muitos ingredientes do psicodrama. Perante um crime perfeito que Carol e Ted (e Larry, sempre contrariado pelo medo e pelo ciúme) conseguiram conhecer mas a que faltam as provas, há que encenar uma hipótese que leve o criminoso a agir e corrigir uma suposta falha.
Marcia (Anjelica Huston), escritora de que Larry é editor, sugere um enredo que irá comprometer o suspeito. Simulando um casting num palco teatral Helen Moss diz um texto cujo sentido será manipulado num telefonema ao Mr. House (Jerry Adler) fazendo-o supor que o cadáver da mulher não foi incinerado como julgava, mas continua íntegro como uma possível prova do crime.
No fundo é proporcionar uma segunda vez, uma repetição que vai actualizar a primeira. Ao contrário da psicologia vulgar aqui inclui-se claramente o tempo, quer na sua continuidade (a duração de Bergson sobre que Moreno reflecte), quer na sua particularidade (o momento único em que a acção se processa).
Se o leitor se escandalizar que se use o policial como um equivalente do terapêutico poderá atentar no argumento de Moreno precisamente a propósito de um outro filme de Hitchcock, A Casa Encantada, embora aí o contexto psiquiátrico do enredo poderá mais facilmente legitimar a comparação.
O psicodrama muitas vezes foi visto em contraposição às psicoterapias interpretativas nomeadamente a psicanálise. Surpreendentemente Moreno diria que "o psicodrama é na realidade o mais interpretativo dos métodos", acrescentando no entanto, "mas o director actua a partir das suas interpretações na construção das cenas". "A interpretação verbal tanto pode ser essencial como inteiramente omitida, segundo o critério do director, pois a sua interpretação está no acto. A interpretação verbal frequentemente é redundante." Trata-se de um texto tardio, publicado já um ano depois da sua morte, no capítulo sobre o psicodrama num tratado de psiquiatria que se tornou a obra de maior prestígio entre os textbooks norte-americanos, mas sustenta na perfeição que a interpretação do director é o guia para a acção e não deve, portanto, ser uma conclusão, mas uma hipótese a investigar na cena dramática. "A regra geral da direcção consiste, principalmente, em depender dos protagonistas para o fornecimento de pistas sobre o modo como a produção deve ser encaminhada." No entanto "o director é ele próprio um símbolo de acção equilibrada, orquestrando, integrando, sintetizando, fundindo todos os participantes num grupo."

António Roma Torres in capítulo 20 Hipótese Dramática (O Misterioso Assassínio em Manhatan, 1993) de TUDO O QUE SEMPRE QUIS SABER SOBRE PSICODRAMA (MAS NUNCA OUSOU PERGUNTAR A WOODY ALLEN), Edições Afrontamento, 2018, pgs 127-130

 


Posted by A. Roma Torres at 5:35 PM BST
Updated: Wednesday, 28 August 2019 4:03 PM BST
Post Comment | Permalink
Monday, 12 August 2019
Histórias

 

Perguntei um dia ao neurologista Oliver Sacks o que é a seu ver um homem normal. (...) Hesitou e depois respondeu-me que um homem normal será talvez aquele que é capaz de contar a sua própria história. Sabe de onde vem (tem uma origem, um passado, uma memória em ordem), sabe onde está (a sua identidade) e crê saber para onde vai (tem projectos e a morte no fim). Situa-se, portanto, no movimento de uma narrativa, é uma história, pode dizer-se.

Se esta relação indivíduo-história se rompe por qualquer razão fisiológica ou mental, o relato quebra-se, a história perde-se, a pessoa é projectada para fora do curso do tempo. Já não sabe nada, nem quem é nem o que deve fazer. Agarra-se a simulacros da existência. Ao olhar do médico, o indivíduo surge então à deriva. Se bem que os seus mecanismos corporais funcionem, perdeu-se no caminho, já não existe.

Jean-Claude Carrière (2000). Tertúlia de Mentirosos: Contos filosóficos do mundo inteiro. (Telma Costa, Trad.). Lisboa: Caminho. pp. 5-9. 

Estas palavras do excelente argumentista de cinema francês talvez sejam úteis pata terapeutas que não se entendem, e aos seus pacientes, como contadores de histórias.

 

Há anos estive no Porto com Jean-Claude Carrière (convidado pelo Fantasporto) num encontro com Saguenail e Regina Guimarães cuja conversa foi publicada no nº 13-14 da revista A Grande Ilusão em Maio de 1992. Tive a sensação que para ele a relação do argumentista com o realizador era próxima da do terapeuta com o paciente. Ele dizia que era dialogar não só com o realizador, mas também com os actores e os outros técnicos. "Pelo menos no meu caso, é obrigar o realizador a fazer o filme que ele próprio quer fazer". "Ultrapassar o (seu próprio) nível (...), ser mais ambicioso". "Acontece que a maior parte dos grandes realizadores precisam do argumentista porque o exercício solitário da profissão não basta, não lhes basta."

 

 

 


Posted by A. Roma Torres at 2:37 PM BST
Updated: Wednesday, 28 August 2019 4:06 PM BST
Post Comment | Permalink

Newer | Latest | Older