"Inquietude"

 

                                    Filme de Manoel de Oliveira, Portugal, 1998

 

 
 

Aos 89 anos de idade, Manoel de Oliveira inspira-se em três histórias literárias, de Prista Monteiro, António Patrício e Agustina Bessa Luís, para compôr uma reflexão sobre a finitude da experiência humana e fá-lo com uma dose saborosa de ironia e de sentido do paradoxo.

“Inquietude” é um filme estruturado duma forma dialógica, não apenas entre os personagens de cada um dos segmentos,  marcados pelas diferenças, de idades (“Os imortais”), de sexo (“Suzy”) ou de língua (“A mãe de um rio”), mas também na própria articulação das três histórias, que não surgem de uma forma independente mas ligadas por um artifício narrativo que torna a articulação entre elas estrurada num nível diferente, seja pela observação do palco, seja na história mítica que um personagem conta a outro, em ambos os casos no segmento “Suzy” que é de alguma forma o referente em que cada uma das outras histórias é contada.

De certa maneira também o cineasta, depois da liberdade de reminiscências pessoais que percorria “Viagem ao princípio do mundo”, volta a um cinema reflexivo, de recorte literário, que exige dos intérpretes um difícil sentido da declamação, na linha do distante “O passado e o presente” ou, mais recentemente, de “A divina comédia”,de partes de “Vale Abraão”, de “Party” ou de “A caixa”.

“Inquietude” funciona como um jogo de espelhos a diferentes níveis e é das relações, por vezes enigmáticas, que o filme vai estabelecendo que nasce um sentido verdadeiramente interessante.

As duas primeiras histórias (“Os imortais” e “Suzy”) têm óbvios pontos de contacto, não apenas na estrutura narrativa como no próprio conteúdo ou na sua natureza paradoxal. De facto Manoel de Oliveira seguindo a peça de Prista Monteiro, no primeiro segmento, acaba por desenvolver a ideia da morte como condição da imortalidade, enquanto que no texto de António Patrício se diz que só a verdade é na realidade inverosímil.

Estas aparentes contradições expressam-se num desejo de absoluto, que se resguarda da vida (e daí o apêlo ao suicídio como condição de sobrevivência ante a reforma e a velhice, no diálogo dos dois sábios, pai e filho, jubilados), mas ao mesmo tempo também numa entrega despreocupada onde a longevidade e a vida mundana parecem caminhar na mesma direcção, eventualmente oposta ao misticismo implícito de “A mãe do rio”, último segmento inspirado num texto de Agustina Bessa Luís.

O filho (Luís Miguel Cintra) de “Os imortais” ou Suzy (Leonor Silveira) são símbolos de uma contradição inerente à natureza humana, consumando-se num tempo finito que se gasta e, por ventura, se perde, mas deixando uma imagem, um rasto como se dizia em “Francisca” que de certa maneira é um outro meio corpo para usar a linguagem figurada de “Os imortais”.

Aliás “Os imortais” é de certa maneira a história mais forte de “Inquietude”, à luz da qual as outras ganham significado, contrariando um pouco a aparente centralidade que a narrativa concede à Segunda história.

Se a aposta de Manoel de Oliveira valoriza a ligação entre os três textos em que se inspira, o filme no entanto não tende a estabelecer uma relação linear  entre eles, permanecendo um certo mistério para o espectador.

A última história, “A mãe de um rio”, inspirada como muitos dos seus filmes anteriores em Agustina Bessa Luís, resulta talvez a mais estranha e aparentemente distante das outras duas. Trata-se de um conto com uma grande dose de magia, acentuada pelo diálogo em que a identificação entre Leonor Baldaque e Irene Papas se esbate pelo diálogo onde se mistura o português e o grego (o uso da palavra pelo seu lado musical e portanto independente da sua intelegibilidade retoma muitos dos filmes de Manoel de Oliveira, e mesmo no imediatamente anterior “Viagem ao princípio do mundo” a dificuldade de reconhecimento do parentesco pelo diferente idioma, na sequência do actor luso-francês que visita a tia portuguesa, alcança um efeito semelhante).

Mas o ponto de ligação com os personagens das duas outras histórias passa provávelmente pela renúncia da vida (do amor como em muitos dos amores não consumados dos filmes de Manoel de Oliveira desde “Benilde” e “O amor de perdição”, mas também do fascínio do mundo exterior e distante) como uma espécie meia morte onde nada se parece esgotar, nem a vida completamente, nem a própria morte.

Continuando reflexões de uma grande riqueza e coragem, Manoel de Oliveira interroga a morte e a vida precisamente na dificuldade de lhes estabelecer uma fronteira, talvez prolongando uma sequencia paradigmática de “Non” precisamente na agonia do protagonista e na impossibilidade de definir essa linha aparentemente clara onde a vida e a morte se cruzam ou se encontram.
A. Roma Torres
 


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